A história seria assim: anos nove anos, meus pais me colocaram numa escolinha de futebol. Apesar de magro, logo comecei a me destacar jogando na defesa, com desarmes cirúrgicos. Fui me aperfeiçoando e me tornei um zagueiro de classe. Era disputado na cidade em campeonatos de várzea e vencedor com o time do colégio. Aos dezesseis anos, participei de peneira no Guarani, de Campinas. Passei e, dois anos depois, me tornei profissional. Virei pagodeiro e mulherengo. Joguei por clubes grandes do Brasil e atuei por equipes medianas da França e da Itália. Encerrei minha carreira numa volta às origens, jogando sem salário pelo Atlético Tricordiano.
Obviamente, se assim tivesse sido, haveria um “não” sobrando no título. O leitor interessado na “verdade” pode guardar só a primeira frase ali de cima, a da escolinha de futebol. Nela, aprendi fundamentos como cabecear, tocar, correr com a bola, entre outros. Participei de amistosos pelo sul de Minas e até de um internacional, contra um time japonês que excursionava pelo Brasil. Recebi várias palestras do tipo “sou vivo, não uso drogas”, inclusive uma, no CT do Palmeiras, com o Profexô, conhecido pela Luciana Gimenez como “Luxesburger”. Aprendi que mesmo uma água de galão com gosto estranho podia ser melhor do que Coca-Cola quando se jogava no sol das 14 horas. Que os seus colegas te chamam de “baixinho” mesmo que sejam menores do que você. E que vestiários cheiram a urina.
Mas eu não seria um jogador de futebol. Sequer existia essa ilusão para o treinador, meus pais e mesmo para mim. Meu desafio era ao menos jogar dignamente – o que até chegou a ocorrer quando, anos depois, no futsal, eu era um fixo razoável com chances de ir para o time do colégio. Só que nunca levei o menor jeito com esportes, o que não surpreende ninguém que me conheça. E essa experiência de escolinha tinha tudo para ser traumática. Eu não jogava bem, era mais novo que os outros garotos, era bastante protegido (um desses “meninos de apartamento”, embora morasse em casa) e sofro de timidez crônica. Nesse contexto, eram consideráveis as chances de eu ser esmagado por tal ambiente. Não foi o que ocorreu, entretanto. Embora não fizesse “amigos do peito” eu tinha uma boa relação com a maioria dos colegas. Mesmo sem me integrar plenamente, consegui me adaptar ao “mundo do futebol infantil”.
E assim costuma ser. Apesar da minha “total falta de malemolência”, nunca fui daqueles meninos que lancham na sala de aula, com a companhia dos girinos da aula de ciências. Integração social nunca foi o meu forte, mas não me vejo levando algum episódio de exclusão para um divã. De algum modo, eu sobrevivo.
Não tenho uma história gloriosa como a do primeiro parágrafo. Virei um escritorzinho voluntário de horas vagas e um “dente-de-leite” na modalidade intelectual. Estou em contagem regressiva para adentrar numa crise homérica do tipo “o que eu faço agora? eu preciso de um emprego”. Quando ela se estabelecer, espero lembrar que, por mais feio que o diabo seja, até que nossa vida termine (tabelinha com o texto anterior!) a gente sobrevive. Se não der para fazê-lo bem, fica como meta alcançar a dignidade.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Como não me tornei jogador de futebol
domingo, 1 de agosto de 2010
“A morte” ou “Ela vem, cheia de amor pra dar”
“Ó Morte, velho capitão, está na hora!levantemos âncora!
Este país nos entedia, ó Morte! Embarquemos!” (Baudelaire)
É uma manhã normal, você está deitado, num sono tempestuoso de ressaca da noite anterior e o domingo promete ser arrastado como outro qualquer. Só que do seu quarto dá para ouvir o choro de sua tia e sua mãe e você entende: desta vez, a morte resolveu visitar sua família. Ela pode até demorar, mas ela comparece. Sempre.
E por mais contraditório que seja, já que convivemos com a morte desde quando matamos nossos primeiros pets com nossa “ternura excessiva estilo Felícia”, jamais estaremos preparados para a morte. Mesmo que a realidade de que todos nossos entes queridos são passíveis de zarpar desse plano, a teoria e a prática, pra variar, não se encontram. Imaginar perder algumas pessoas, só imaginar, já deixa alguns com lágrimas nos olhos. Preparação para a nossa morte, então, nem se fala. Lidar com a efemeridade da nossa vida é bem complicado.
Mas a morte é uma realidade. E democrática. Atende a todos, às mais diversas classes sociais (embora alguns ricaços tentem tapeá-la deixando-se congelar na esperança de serem revividos em um futuro distante), tendências políticas, índoles... Se você é ruim, morre. Se for bom, morre também. Além disso, a morte também é democrática nas diversas formas em que aparece. Desde casos trágicos de acidentes, assassinatos ou doenças, até em episódios cômicos (dependendo do humor de quem observa), como no célebre caso do mergulhador que morreu em um incêndio, pois foi pego por um helicóptero que levava água do mar para apagar o fogo.
Talvez a grande dificuldade de nossa parte seja entender que vida e morte são entidades ligadas, praticamente uma coisa só. Só morremos porque, antes, vivemos. Se mudamos o ponto de vista, podemos dizer que a vida é só o caminho que leva até a morte. Recentemente, dois óbitos ocuparam espaço na mídia. Eliza Samúdio, supostamente assassinada a mando do goleiro Bruno, teve a interrupção de sua existência em decorrência do tipo de ganha-pão que escolheu: pensão milionária ao se envolver com gente rica, não necessariamente boa. Já o filho da Cissa Guimarães, atropelado andando de skate em um túnel, morreu ao praticar um esporte que, essencialmente, é urbano – ou seja, oriundo de um ambiente de colisões quase naturais. Não deixa de existir certa linearidade da vida com a morte.
Às mortes supracitadas, prefiro a do meu tio, aquela anunciada no princípio do texto. Morreu dormindo, do coração, depois de passar um dia na roça, voltar para casa, comer uma carne e tomar uma pinguinha. Uma morte serena. Porque, com alarde ou não, no fim das contas, toda existência é efêmera, mesmo.
sábado, 10 de julho de 2010
Passado requentado
Seria uma tarde agradável de domingo, com aquele sol soft de inverno. Mas ele estava detestando. Alguns amigos tiveram a idéia de reunir a turma do colégio. Dez anos da formatura, um churrasco comemorativo. Contemplando o passado. E lá estava ele, vendo no que ia dar.
Colegas que há tanto tempo ele afastara da memória, agora vinham perguntar-lhe o que estava fazendo da vida. Exibiam dentição amarela, alianças de casamento ou próximas disso. Bebês gordos e cônjuges insossos. Todos felizes e relatando suas glórias. Exibições.
Deprimentes. As garotas de outrora, que apertavam em calças jeans e blusinhas aqueles admiráveis objetos de desejo, pareciam irmãs do substantivo “flacidez”. Os amigos, antes parceiros cheios de vitalidade para revolucionar a rotina estudantil, agora se esparramavam em cadeiras, estufando suas barrigas só escondidas pela calvície. E ele sabia que não se importava mais com essas pessoas.
Mas a celebração continuava. Para integrar o ambiente, requentavam-se histórias dos dias em comum. O ambiente estava alegre. Sorrir e acenar, isso pode resumir uma existência. Por dentro, porém, cada um procurava medir suas infelicidades no espelho alheio. Patético assim. Porque as pessoas têm dificuldade de entender que o passado é morto a cada dia. Cutucá-lo só consegue ser sadismo.
Em todo caso, ele teria que sobreviver. E para isso, havia o álcool. Sempre o álcool.
Brindou à facilidade de se entorpecer.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
sem título 2
Cinco horas da tarde de uma terça-feira e eu aqui, sendo maquiado. Em uns vinte minutos a gente entra no ar, então é essa correria. Ajeitar iluminação, áudio e as imperfeições da minha pele. Fico pensando: porque mesmo eu fui fazer jornalismo? Nem é difícil lembrar. Não existiam muitas opções dignas para um adolescente que escrevia melhor do que os colegas e que conseguia desenvolver alguns argumentos sem inundá-los de gírias...
Mas eu não queria fazer tv. Minha idéia era virar um colunista de jornal, desferindo críticas sobre qualquer coisa. Lógico, não seria nada mal ter um cantinho lá no caderno de esportes, ou no suplemento de cultura de um grande periódico. Mesmo escrever sobre política eu toparia. Mas não. Durante a graduação, todo aquele alarde dos professores, a mídia impressa vai acabar, não tem jeito. E o jornalismo em si está em crise. Então, vá para a televisão, eles diziam. Paga-se melhor (ao William Bonner, eu descobri), você é um bom comunicador e não pode desperdiçar seu rostinho bonito em uma redação empoeirada. (Bom, acho que esse último argumento fui eu mesmo que formulei...) A questão é que cá estou eu.
Arrumo-me, levanto o microfone, já entrarei no ar. E ficarei por uns vinte segundos, se muito. Vai acabar Espanha 1 x 0 Portugal. Estou cobrindo a festa de uma comunidade portuguesa, que, com esse resultado, azedou. Quem inventou que é interessante mostrar esses imigrantes fajutos acompanhando jogos de Copa do Mundo? Não que eu queira salvar o mundo, mas isso é amenidade demais. E chato pra porra. Paciência, recebo para isso. E depois eu vou dar uma mãozada naqueles bolinhos de bacalhau e virar alguns copos de cerveja. Ah, se vou...
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Abrigos de inverno
É um belo espetáculo andar pelas ruas nas manhãs de inverno Mesmo que a baforada gélida secando nossa pele diga o contrário. Pois é bonito ver as pessoas e suas satisfações em andar vestidas para o frio. A relação que se tem com um agasalho vai além de objetividade. Encontra-se neles um abrigo, um refúgio, como um guerreiro em suas armas. É divertido, todos se curtindo com seus moletons.
Com seus casacos.
Jaquetas de tecido sintético.
Blusas de lã.
E os afetados apelando para cachecóis.
Uma beleza.
Quando criança eu também vibrava usando roupas de inverno com capuz. Era como se transformar em algum personagem de desenho. E minha jaqueta de Macgyver, como um colega bem observou, também me fazia esbanjar poder. Com tantos bolsos, eu poderia levar Deus sabe o quê nela.
É isso que o inverno é, uma experiência lúdica.
Hoje eu não visto nada disso. Uso bermudas e camiseta, porque eu vou pular na piscina daqui há dez minutos, então, tanto faz frio agora. Atravesso a Antônio Carlos e fico vendo toda essa gente em carros, esse abrigo que custa a partir de 20 mil e uns bons trocados. Com vidros fechados e ar quentinho, o símbolo maior de liberdade a ser adquirida pelo indivíduo. Sim, todos esbanjando a liberdade em ir de carro da casa para o trabalho e vice-versa. E nas férias, ir para Guarapari, ou para Ubatuba, se estiver no sul de Minas, ou para Santos, se for um paulistano... E ser livre para ter seu próprio cano de descarga. Belezuuuura!
Eu vou pular na piscina, e ela não permite abrigos. Uma tia ao lado levou o seu até a beira da água, o seu roupão, mas ele não vai acompanhá-la na hidroginástica. E nada vai me ajudar nos 600m de um vez só que a professora me pede. Nenhuma daquelas roupas de alto desempenho. Só meu fôlego, bom para um magrelo.
Meu abrigo vem depois. Japão x Camarões. Em seguida, ler um texto, hoje é dia de Koselleck. Para mais tarde escrever academicidades que talvez uns dois no universo vão ler. Urrul!
E meu blog? Não, ele não. Logo vou virar um Salinger, só que sem nenhum livro bem sucedido. Escreverei só para mim, não vou publicar nada. Porque o ego é o refúgio dos fortes. Yeah!
terça-feira, 1 de junho de 2010
Futebol, entre ranzinzas e a alma humana
Vem chegando uma nova Copa do Mundo de futebol e não dá para se ignorar essa data. Afinal, ela é prato cheio para os ranzinzas de plantão, destilando pragas contra o futebol e todo o teatro que se faz ao seu redor.
E não dá para tirar um pouco da razão desses indignados: os noticiários se esvaziam de outros temas; a combinação verde amarelo deixa de ser cafona; “a galera toda” se encontra para ver os jogos do selecionado brasileiro, o que provoca uma aglomeração grotesca de torcedores que só querem um motivo pra reafirmar sua vida burguesa, ou desejo disto...
Apesar disso tudo, inda acho perde quem se deixa dominar pelo mal humor e não se diverte com a Copa. Poxa, como o futebol pode ser divertido! E falo até de uma diversão intelectual, para aqueles que gostam de “observar a alma humana”. Albert Camus já dizia que muito daquilo que ele aprendeu sobre os homens foi nos seus tempos de futebolista. Realmente, o esporte é uma janela privilegiada. Ali, temos indivíduos doando-se por uma paixão (a nacional, por exemplo), colocando à prova sua capacidade de realizar seus objetivos, testando seus limites físicos... E escancarando o quão humanos eles são.
Me vem à mente a final da Copa de 2006. Zidane, líder da França, conhecido por jogar com classe e inteligência, agride um adversário que ofendeu a honra de sua irmã. Não uma agressão qualquer, uma violenta cabeçada no peito. Ou seja, até os gênios perdem a cabeça. (e os escritores medianos não perdem os trocadilhos infames...)
Nelson Rodrigues dizia que “em futebol, o pior cego é o que só vê a bola... Se o jogo fosse só bola, está certo. Mas há o ser humano por trás da bola, e digo mais: - a bola é um reles, um ínfimo, um ridículo detalhe. O que procuramos no futebol é o drama, é a tragédia, é o horror, é a compaixão.” Pena daqueles que preferem repetir o clichê de que “são apenas 22 homens correndo atrás da bola”. Eles perdem uma bela diversão.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Flashes na Escuridão - Capítulo 7
7
Laura finalizava seu cigarro quando, com um beijo breve, José Márcio partiu do quarto. No hotel, tudo estava quieto. Ou, ao menos, os sons não eram vigorosos o bastante para atravessar paredes. E, da porta, ela escutou seu companheiro praguejar diante do elevador e seguir para as escadas. A presença dele ia se dissipando lentamente, na medida em que mesmo o som da sua decida pelas escadas se perdia. Ela estava só, novamente.
Da cama, com o cigarro já acabado, ela tentou ligar a tv. Nada. Tentou acender o abajur. Nada. Então, levantou-se, seminua, e foi até a janela. Lá fora, tudo escuro. Até seus olhos se acostumarem com a falta de luz. E ela pôde perceber movimentações nos apartamentos do prédio em frente. Fantasmagóricas luzes de velas locomoviam-se enquanto outros semblantes faziam como ela e espiavam a rua. Em um dos apartamentos, Laura pode distinguir cachorros e pombas de sombra. Algumas crianças deviam estar matando o tempo com brincadeiras diante de alguma chama. Por mais que a escuridão pudesse, aparentemente, também apagar as pessoas, elas continuavam ali. Apavoradas, entediadas, mas ainda ali.
E Laura, sozinha. A solidão no escuro é pior, pois nem a distração das informações visuais está presente. Somos apenas nós e nossos sentimentos. Talvez, o encontro mais assustador possível. Nessa situação, Laura se deparava com sua angústia, escancarada, e não tinha para onde desviar o olhar. A vida profissional, durante os últimos anos o único foco de sua atenção, ia bem. Mas ser bem sucedida já não a preenchia. Tampouco o amante surtia o efeito de antes, quando os encontros às escuras davam injeções de ânimo que há muito ela ignorava.
Sentir essa angústia, porém, não era novidade para Laura. Era um problema diagnosticado e ela pretendia saná-lo. Por isso, ela voltou para a cama e acendeu o último cigarro do maço. Calma. Há dois meses ela não tomava a pílula anticoncepcional. Pelas suas contas, aquele era um dia fértil. Com alguma sorte, aquele seria seu último cigarro em nove meses. E, então, ela não estaria mais só.
domingo, 2 de maio de 2010
Discografia recomendada: "Jar of Flies' - Alice in Chains

O Alice in Chains foi a banda mais pesada dentre as que emergiram na cena musical de Seattle nos anos 1990. Todavia, dentre seus três álbuns de estúdio daquela década, foram lançados dois EPs semi acústicos. Jar of Flies é o segundo, saiu em 1994 e, apesar dos menos de trinta minutos de duração, atingiu boa vendagem e emplacou dois hits.
Mas por que recomendá-lo? Bom, primeiro porque o raro leitor que me der ouvidos vai gastar pouco tempo de sua vida se seguir meu conselho. Segundo, porque se o Alice in Chains é uma ótima banda “plugada”, ela é tão boa quanto soando acústica. E, por fim, porque o disco é bom, mesmo. Tem algo que eu valorizo, que é coesão dentre as músicas. Jar of Flies soa perfeito se ouvido de uma vez.
O álbum começa com “Rotten Apple”, não considerada clássica na discografia da banda, porém, com um efeito atmosférico poderoso. Segue-se “Nutshell”, mórbida e com uma bela melodia. Na seqüência, os dois hits, “I Stay Away” e “No Excuses”. Destaco o arranjo de cordas da primeira (abaixo está o link para seu clipe) e o ritmo da segunda. Em seguida, “Whale & Wasp” e “Don’t Follow”, duas composições de Jerry Cantrell, mais singelas ante a carga emocional que tem a maior parte das músicas do grupo. Por fim, “Swing on This”, certamente fruto de uma jam, sem grandes pretensões.
Jar of Flies é um belo disco para se escutar naqueles dias em que não se está com um sorriso que vai de uma orelha até a outra, mas que você também não chegou ao ponto de refletir sobre os percalços da existência (para estes, procure o disco do ano seguinte, Alice in Chains). Uma boa trilha sonora para quando se está leve o suficiente para sentir brisas discretas de domingos de manhã.
domingo, 18 de abril de 2010
Esperas
Oscar estava impaciente. Talvez fosse a situação, mas também podia ser a sala. Muito clara, paredes limpas, pessoas com uniformes brancos. Uma tv ligada sintonizava o Jornal Nacional, com Cid Moreira e Sérgio Chapelin, e naquele dia, nada tinha acontecido de novo.
E tinha as pessoas ao redor. Todos tensas, esperando notícias. O que mais tem para se fazer em um hospital? Na sua frente, um homem robusto, talvez um palmo maior que ele, dentes amarelos e bocejos escandalosos. Ao lado, uma senhora muito perfumada, folheando ferozmente uma revista de amenidades. Era pior ficar ali. Oscar, então, foi caminhar pelo corredor da recepção.
O hábito de fumar fazia falta nesses momentos. Ele nunca tivera vontade de consumir cigarros, achava a fumaça fedida e a dependência, deprimente. Mas quando ele estava esperando algo, nossa, como fazia falta um cigarro! Abstrair-se do mundo exterior e buscar refúgio nas tragadas. Não ser visto como alguém com expressão de “caramba, chega logo!”, mas sim como alguém fumando. Só isso.
Agora, com um cigarro, ele estaria tranqüilo, fitando o horizonte e pensando que, se viesse um menino, se chamaria Henrique; se fosse menina, aí a mãe é quem daria o nome. Que jogaria bola com o menino e o colocaria numa escolhinha de futebol, quando fosse o tempo. Que tomaria chá com a menina e suas bonecas. Que compraria uma bicicleta com garupa para passear com a criança por ruas tranqüilas e que a levaria no parquinho todas as semanas... Mas não tinha cigarro, então ele foi comprar um café.
No caminho, aparece a enfermeira. Era um menino.
11 de abril de 2010.
Duas horas da manhã e Oscar em seu carro, esperando. Um cigarro faria isso ser menos cansativo. Seus cabelos haviam diminuído, as lentes de seus óculos, engrossado, a barriga, arredondado, mas ele continuava aflito com esperas. Ao menos tinha o som, ele escutava o clássico Led Zeppelin IV. Batia no volante no ritmo do John Bonhan. E nada do Henrique.
A rua já estava agitada, muitos carros saindo. Ele estava perto do Mineirão, onde acabara de acontecer o Axé Brasil 2010. Oscar era só mais um dos pais esperando os filhos saírem do evento. Então, ele viu o Henrique. Bermuda com estampa colorida, abadá, tênis de marca. O penteado da moda, cuidadosamente arrumado com gel. Chegaria no carro e, disparando uma porção de gírias, contaria que o show tinha sido ótimo, que havia inúmeras meninas bonitas e que ele beijou muitas delas. E falaria para o pai tirar o Led Zeppelin e colocar numa rádio qualquer.
Agora, Oscar sabia o que tanto o incomodava nas esperas: nunca se sabe se elas realmente vão valer a pena.
Talvez, seria melhor se tivesse nascido uma menina...
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Ouvindo o dia
Então, vêm os sons das construções. Coisas sendo marteladas, furadas, partidas. O metal afiado gira e racha ao meio a madeira. A cidade está em transformação e constante são seus sons.
Dos céus, outro motor surge: algum helicóptero risca morosamente o céu, para se certificar que tudo aqui em baixo segue na mesma.
Barulheira.
Pra variar, algo de bucólico. Parcos pios de pássaros, muitos enjaulados, salpicam algo não mecânico nisso. E ouço o bater das asas de alguma pomba folgada perto de minha janela. Até parece que estou no campo...
Pfffff.
Novamente, ruídos metálicos. Algum vizinho bate panelas, gavetas com talheres, liga a torneira. É a magia de fazer o almoço. Uma tv ligada, possivelmente em algum programa em que se debata como cuidar dos filhos problemáticos ou a vida das celebridades do último Big Brother.
Alguém esta chutando uma garrafa na rua.
Isso tudo acontecendo junto, e se repetindo, repetindo de novo, mais alto...
Ok. Mundo experimentado. Mas agora, acho que vou escutar alguma música no fone de ouvido. Barulho por barulho, é mais fácil estudar com um que seja tonal.