sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A miséria do autor

            A tela branca. As letras, que iam pipocando, lentamente e, depois, sendo apagadas, todas de uma vez. Essa rotina lhe dava ânsia. Ficar ali, horas a fio, costurando idéias que não conseguia desenvolver. Habermas, Glauber Rocha e quem mais viesse. Nada. Não dava liga.
            Estava cansado.
            E seu vulcão interno em atividade. Quase trinta e oito graus. Garganta arranhada. Inflamação e ânsia. Sonhava em pular numa banheira com gelo. Quem sabe, com o choque térmico, encontraria a inspiração. Já de tão longe perdida. Uma tarde de trabalho para pingados parágrafos mal alinhados.
Literariamente, a mesma tragédia. Um blog às moscas. Sem rumo. Atualizações. Sem razão de ser.
            Um banho frio, por que não? Qualquer coisa que aliviasse sua febre. Já que sua miséria interna, essa não tinha remédio.
Não há paracetamol que resolva a vida de um mal escritor.
Que persiste, Deus sabe porquê.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Reality...

            Francisco estava na cadeira de descanso. Esperava fazer a digestão para mergulhar na piscina. Estava isolado dos outros companheiros, que conversavam no interior da casa. Sentindo que o momento era oportuno, Tatyana aproximou-se dele:
            __E aí, se concentrando para a prova de hoje?
            __Não, só dando um tempo para entrar na piscina.
            __É, também vou entrar, mais tarde. Malhei de manhã para dar uma relaxada na água, agora.
            __Aham.
            __ Chicó, preciso falar algo contigo...
            __ Fala aí.
            __ Então, acho que você deve estar com raiva de mim, porque eu votei na Sassá e ela foi eliminada. Mas olha, quero te dizer que não foi nada pessoal, isso aqui é um jogo, e eu tive que votar nela. Nada contra vocês, não queria acabar com o casal da casa. Mas é que eu tinha que escolher alguém e ela foi a pessoa com quem menos tive afinidade...
            __De boa, Taty, não estou te julgando. Isso acontece, é a regra... Me dá um pouco da sua água?
            __ Claro, pode pegar.
            __A comida estava meio salgada hoje, né? Mas não liga, não fiquei com raiva de ninguém. Foi chato ir à votação do público junto com a Sassá. Nem tivemos chance de continuar juntos. Mas, de boa, eu não julgo ninguém. É o público, né?
            __É verdade. Mas bom saber que não ficou magoado. Não gosto de brigar com ninguém. Nos vemos mais tarde, então?
            __Você sabe onde eu moro... Hahaha...
            Taty foi embora e Francisco continuou na sua cadeira. Seus olhos estavam semicerrados para evitar a luz forte da vigorosa tarde. E ele pensava consigo. Não estava “de boa”. Taty e sua panela na casa não perdiam por esperar. Eles que combinavam votos, entre cochichos e troca de boatos. Envenenavam a casa com suas armações. A vez deles chegaria.
Francisco, motoboy, estava acostumado a dificuldades. Era à base de manobras arriscadas, buzinas nos ouvidos e ingestão de fumaça, que ganhava sua vida. Sempre tinha um preço. Agora, a chance da virada. Perdera Sassá no jogo, o amor de sua vida que conhecera há algumas semanas. Mas era uma provação.
No final, ele venceria. Ganharia um milhão de reais. Daria uma casa para sua mãe. Compraria uma cobertura para ele, na Barra da Tijuca. Casaria com Sassá. Ela desfilaria como madrinha de bateria em escola de samba. Ele gravaria um cd.Teriam filhos.  E coisa e tal.
... Novela.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vocabulário ou Quando sobra o mais grave


Binóculo: instrumento para potencializar a visão em distância. Utilizado por visinhos indiscretos e em filmes de guerra com Chuck Norris.

Ciúme: temor que a pessoa amada desenvolva afeto por outro (a); amor, para além do saudável.

Helicóptero: abelha gigante de metal, com zumbido motorizado, que carrega espécimes humanos (policiais, jornalistas e abastados financeiramente, em geral).

Milionário: 1) aquele cujos bens materiais ultrapassam a quantia de um milhão de dólares estadunidenses; 2) parceiro de José Rico na dupla sertaneja Milionário & José Rico.

Traição: ser desleal com quem confia em você; ato de judasiscariotizar alguém.

Turbulência. Parado no alto, o helicóptero balança. Dentro, o milionário afrouxa a gravata. Usa um binóculo para vigiar os veículos que entram no motel. Tem ciúmes da esposa, acha que ela está o traindo. Avista um esportivo vermelho chegando na garagem. Do mesmo modelo do de sua mulher.
Se for ela, o milionário vai se jogar.
Tem farta conta bancária e, também, problemas psicológicos.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O futebol, os vinte e dois atrás de uma bola e Nelson Rodrigues se revirando no caixão


            Eu não respeito quem define o futebol como “vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola e milhões de bobos olhando”. E acho que o leitor deveria fazer o mesmo. Porque, tudo bem, nem todo mundo precisa gostar de futebol. Isso eu aceito. Mas esta explicação... não dá.
            Deve ser triste pensar assim. É ter uma visão objetiva e só isso. Transformar o mundo em dados, números e missões a serem cumpridas. E nada mais. É ignorar a arte. Quem define o futebol desse modo, se quiser ser coerente, deve dizer que o teatro, por exemplo, é “um bando de bobos fantasiados, fingindo ser outras pessoas”. E por aí vai.
            Eu poderia mobilizar muitos argumentos para combater essa visão simplista. Dizer das variações de narrativa dentro de um jogo, da complexidade dos personagens envolvidos, ou reivindicar a beleza estética dessa batalha campal. Mas não. Prefiro me ater ao componente emocional.
            Nada me comove mais diante de uma tevê do que a cena de um torcedor em prantos. Nenhum filme, novela (pff), Caldeirão do marido da Angélica... Nem mesmo, pasmem, os noticiários. Nesse último caso, não é algo que eu sinta orgulho, mas o jornalismo pasteuriza tanto as tragédias que é difícil não estar anestesiado.
            Agora, uma cena como a da torcida do River Plate, desesperada com o rebaixamento do maior campeão argentino, ou a perplexidade de um chico, no jogo Velez Sarsfield x Peñãrol, quando o atacante do seu time escorregou na hora de bater um pênalti. Ou, ainda, o senhor, torcedor do Botafogo, um pacato advogado de segunda a sexta, que, em uma demonstração de ira indomável queimou a camisa do seu clube na goleada diante do Vasco, no ano passado. Isso me parte o coração. Porque é a demonstração de que as pessoas ainda se comovem por algo supérfluo. É a dor que vem da alma, aquela fumacinha que, dizem, existe dentro de nós.
            Ficar emocionado quando sua casa caiu, alguma pessoa querida morreu, o seu carro foi alvejado por uma chuva de granizo, o Amin Khamel morreu (tecla de ironia)... é fácil, amigos. Afinal, você está sendo diretamente afetado. Quando se perde uma perna, existe alguma outra opção que não ficar MUITO triste? Agora, sofrer pela derrota do seu time é uma escolha. Nenhuma ponte vai cair, sua vida não estará condenada, tampouco os ursos polares vão ficar extintos. Mas, mesmo assim, você fica triste pela entidade abstrata “time de futebol” e pelo seu orgulho ferido de torcedor.
            Admiro aquilo que foge da objetividade que tentam implantar como lei suprema da vida. Chorar por futebol diz sobre a capacidade humana de desenvolver paixões, um motivo para viver bem mais nobre do que dinheiro e status.
Mas se você, ainda assim, quiser enxerga o futebol como “os vinte e dois trouxas perseguindo a pelota”, fique a vontade. Eu não julgo. Porém, discordo no mais básico: os goleiros não correm atrás da bola, logo, seriam só vinte. E esse é o problema da matemática: ela se faz de certos e errados.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

20-05-11


Gaivota é pássaro de linhas retas
Salpicando o céu nublado
O mar, azul que só pode ser marinho
É composto de fragmentos esbranquiçados
As águas estão alvoroçadas
Pois os barcos estão aí,
Sempre aí
Para cortá-las.

Atravesso a ponte elefante de concreto
Em um desses escapes que nos levam a lugar algum:
De tanto flanar, Baudelaire morreu em Paris.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Pássaro Branco


Hoje, de manhã, eu vi um pássaro branco.
Saltitando pelo quintal
Entre pardais e ruídos radiofônicos
Um alento à sobriedade.
Em sua alvura, um contraste com um mundo
Do colorido promíscuo.

Na pureza que sua imagem invoca
O pássaro branco louva a liberdade
Pois só a transgressão de um canário
Cansado da apatia de sua gaiola
Dos três puleiros e nada mais
Nos proporciona seus vôos
De elegância exemplar.

Também hoje, mais tarde
Eu vi alvura
Pureza
Liberdade
Elegância
Morrerem abocanhados
Por um gato pardo.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Poemeto do Viajante

O bilhete não me dá opção
Poltrona 40, corredor
Ao lado do banheiro químico.

Quando criança, eu era feliz e engraçadinho
De lá para cá, em algum momento,
Eu devo ter errado.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

#microconto 4

Deslizava a faca na barriga suína e vibrava quando os órgãos do cadáver saltavam para fora. Era seu trabalho e ele o adorava.
Não tinha namorada. Talvez não fosse coincidência.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Projeto "Pagode em Prosa" #3

Luiz Carlos sabia que seu trabalho era, possivelmente, um dos mais chatos do mundo. Fazia clipping. Uma formação em jornalismo, discussões e discussões sobre as novas mídias e as interações contemporâneas, em salas de aula e corredores universitários, para ficar ali, selecionando notícias. Fazendo recortes para clientes. Não era seu sonho de consumo. Ao menos, havia algumas vantagens. Como estar on line no Messenger o dia todo e responder a seus emails assim que os recebesse. Afinal, seu chefe, mesmo que quisesse, não era onipresente. Porém, naquela terça, ele viu em sua caixa de mensagens o nome de Lídia. Ficou temeroso. Luiz Carlos, Há quanto tempo, ein? A caixa postal do seu celular deve estar com problemas, não te dá os recados das ligações que faço. Mas acho que internet você utiliza, pois vejo suas atualizações no Facebook... Olha, Luiz Carlos, vou ser direta. Estou te escrevendo para ser sincera. Quero dizer que eu lamento, e lamento muito. Me entristece pensar que tudo que nós vivemos não significou nada para você. Que aquela relação maravilhosa que a gente teve, tudo que sonhamos juntos, no fim das contas, não foi mais valiosa que seu egoísmo. Pois você é isso, um egoísta. Quer ser um garoto para sempre, não ter compromisso com ninguém e com nada? Também me culpo. Por ter sido tão besta e me iludido. Achei que a paixão, aquela loucura toda que vivemos, significaria algo para você. Ainda não entendo. Foi tão fácil esquecer aqueles dias inteiros que passamos juntos, trancados em casa, sem dar a mínima para o resto mundo? Os momentos que vivemos, nossas viagens... Hoje vejo nossas fotos e quase choro por lembrar que você, do nada jogou tudo fora. Mas eu sei que você não está bem. Eu te dava alegria, te completava. Juntos éramos fortes, mas separados, você é só você, não é nada. Porque eu, Luiz Carlos, agora estou namorando, tenho um outro amor. Alguém que me valoriza e com quem, eu tenho certeza, serei feliz. Já você, achou que estava sendo o maioral ao terminar comigo? Foi você quem me perdeu. Pena pra você. Apesar de tudo, Luiz Carlos, eu não tenho ódio de você. Esse é um sentimento muito pequeno para mim. E você não merece que eu me rebaixe. Não te quero mal, nem bem. Tenho indiferença. É isso que eu precisava dizer. Passe bem, Lídia Luiz Carlos leu. E releu. E quase riu. Mas não, a notícia não era boa. Ele adoraria acreditar que o relacionamento mencioado no email significasse que enfim terminariam os telefonemas mudos que recebia. Que a sensação de ser perseguido pelas ruas acabaria. Que seus amigos não mais seriam interrogados a respeito de sua vida. Mas não. Um email daqueles, enviado às 3:46h de uma madrugada de segunda para terça, falava por si mesmo.


Canção homenageada: