segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Romantismo Revolucionário, cantos 1 e 2

Lá na rua onde eu moro,
Tão fazendo um viaduto
Modernidade o caralho
Quero mesmo é criar um burro.

A Lagoa da Pampulha
Fede pra daná
Vem Aécio, vem JK,
Pro progresso nóis cheirar.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Belo Horizonte à meia-noite


Vultos se movem nas sombras. Espectros dão risadas, que ressoam malignas envolvidas pelo silêncio de todo o resto. A urbanização mineira funciona e, na madrugada, não há trânsito.

Um sujeito surge e balbucia coisas inaudíveis. Esforço-me numa leitura labial. Fracassada. Ele segura um boné, parece se tratar de uma oferta. Faço minha cara de “foi mal, não tenho dinheiro”. E é verdade, do contrário estaria num taxi.

Seria um boné roubado? Ou uma artimanha para me roubar?

À (meia-) noite, todos os gatos são pardos (assaltantes em potencial), diz a sabedoria do assistir-Jornal-da-Globo-tomando-chocolate-quente-enquanto-o-mundo-lá-fora-é-todo-malvado.

É verdade, eu corro risco. Preciso ficar alerta. Consola-me o fato de assim ser a vida, por todos os lados, perigosa. Mas o maior dos riscos, ainda acredito, é morrer de tédio.

No céu não há estrelas, apenas prédios obscuros. Tampouco vejo carruagens ou automotivos dos anos 1920 para me transportar para qualquer “Era do Ouro”. Dou-me por satisfeito em adentrar o primeiro ônibus que me levará para casa. 

Vida pé-no-chão. Tudo que reluz geralmente é ouro de tolo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Matemática Errada

Trinta e sete (37) abusivos graus cozinhando-a sem nenhum pudor.

Quarenta e duas (42) crianças zombeteiras remexendo-se em seus assentos, enquanto ela, no quadro, resolvia problemas matemáticos.

Sessenta e quatro (64) polutos seres humanos espremendo-a lascivamente no ônibus.

Um (01) lugar, afundado no colchão, ao seu lado. Vago.

Os números não formavam uma operação matemática. Mas Elizete queria rabiscá-los com caneta vermelha. Um (01) imenso X.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A miséria do autor

            A tela branca. As letras, que iam pipocando, lentamente e, depois, sendo apagadas, todas de uma vez. Essa rotina lhe dava ânsia. Ficar ali, horas a fio, costurando idéias que não conseguia desenvolver. Habermas, Glauber Rocha e quem mais viesse. Nada. Não dava liga.
            Estava cansado.
            E seu vulcão interno em atividade. Quase trinta e oito graus. Garganta arranhada. Inflamação e ânsia. Sonhava em pular numa banheira com gelo. Quem sabe, com o choque térmico, encontraria a inspiração. Já de tão longe perdida. Uma tarde de trabalho para pingados parágrafos mal alinhados.
Literariamente, a mesma tragédia. Um blog às moscas. Sem rumo. Atualizações. Sem razão de ser.
            Um banho frio, por que não? Qualquer coisa que aliviasse sua febre. Já que sua miséria interna, essa não tinha remédio.
Não há paracetamol que resolva a vida de um mal escritor.
Que persiste, Deus sabe porquê.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Reality...

            Francisco estava na cadeira de descanso. Esperava fazer a digestão para mergulhar na piscina. Estava isolado dos outros companheiros, que conversavam no interior da casa. Sentindo que o momento era oportuno, Tatyana aproximou-se dele:
            __E aí, se concentrando para a prova de hoje?
            __Não, só dando um tempo para entrar na piscina.
            __É, também vou entrar, mais tarde. Malhei de manhã para dar uma relaxada na água, agora.
            __Aham.
            __ Chicó, preciso falar algo contigo...
            __ Fala aí.
            __ Então, acho que você deve estar com raiva de mim, porque eu votei na Sassá e ela foi eliminada. Mas olha, quero te dizer que não foi nada pessoal, isso aqui é um jogo, e eu tive que votar nela. Nada contra vocês, não queria acabar com o casal da casa. Mas é que eu tinha que escolher alguém e ela foi a pessoa com quem menos tive afinidade...
            __De boa, Taty, não estou te julgando. Isso acontece, é a regra... Me dá um pouco da sua água?
            __ Claro, pode pegar.
            __A comida estava meio salgada hoje, né? Mas não liga, não fiquei com raiva de ninguém. Foi chato ir à votação do público junto com a Sassá. Nem tivemos chance de continuar juntos. Mas, de boa, eu não julgo ninguém. É o público, né?
            __É verdade. Mas bom saber que não ficou magoado. Não gosto de brigar com ninguém. Nos vemos mais tarde, então?
            __Você sabe onde eu moro... Hahaha...
            Taty foi embora e Francisco continuou na sua cadeira. Seus olhos estavam semicerrados para evitar a luz forte da vigorosa tarde. E ele pensava consigo. Não estava “de boa”. Taty e sua panela na casa não perdiam por esperar. Eles que combinavam votos, entre cochichos e troca de boatos. Envenenavam a casa com suas armações. A vez deles chegaria.
Francisco, motoboy, estava acostumado a dificuldades. Era à base de manobras arriscadas, buzinas nos ouvidos e ingestão de fumaça, que ganhava sua vida. Sempre tinha um preço. Agora, a chance da virada. Perdera Sassá no jogo, o amor de sua vida que conhecera há algumas semanas. Mas era uma provação.
No final, ele venceria. Ganharia um milhão de reais. Daria uma casa para sua mãe. Compraria uma cobertura para ele, na Barra da Tijuca. Casaria com Sassá. Ela desfilaria como madrinha de bateria em escola de samba. Ele gravaria um cd.Teriam filhos.  E coisa e tal.
... Novela.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vocabulário ou Quando sobra o mais grave


Binóculo: instrumento para potencializar a visão em distância. Utilizado por visinhos indiscretos e em filmes de guerra com Chuck Norris.

Ciúme: temor que a pessoa amada desenvolva afeto por outro (a); amor, para além do saudável.

Helicóptero: abelha gigante de metal, com zumbido motorizado, que carrega espécimes humanos (policiais, jornalistas e abastados financeiramente, em geral).

Milionário: 1) aquele cujos bens materiais ultrapassam a quantia de um milhão de dólares estadunidenses; 2) parceiro de José Rico na dupla sertaneja Milionário & José Rico.

Traição: ser desleal com quem confia em você; ato de judasiscariotizar alguém.

Turbulência. Parado no alto, o helicóptero balança. Dentro, o milionário afrouxa a gravata. Usa um binóculo para vigiar os veículos que entram no motel. Tem ciúmes da esposa, acha que ela está o traindo. Avista um esportivo vermelho chegando na garagem. Do mesmo modelo do de sua mulher.
Se for ela, o milionário vai se jogar.
Tem farta conta bancária e, também, problemas psicológicos.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O futebol, os vinte e dois atrás de uma bola e Nelson Rodrigues se revirando no caixão


            Eu não respeito quem define o futebol como “vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bola e milhões de bobos olhando”. E acho que o leitor deveria fazer o mesmo. Porque, tudo bem, nem todo mundo precisa gostar de futebol. Isso eu aceito. Mas esta explicação... não dá.
            Deve ser triste pensar assim. É ter uma visão objetiva e só isso. Transformar o mundo em dados, números e missões a serem cumpridas. E nada mais. É ignorar a arte. Quem define o futebol desse modo, se quiser ser coerente, deve dizer que o teatro, por exemplo, é “um bando de bobos fantasiados, fingindo ser outras pessoas”. E por aí vai.
            Eu poderia mobilizar muitos argumentos para combater essa visão simplista. Dizer das variações de narrativa dentro de um jogo, da complexidade dos personagens envolvidos, ou reivindicar a beleza estética dessa batalha campal. Mas não. Prefiro me ater ao componente emocional.
            Nada me comove mais diante de uma tevê do que a cena de um torcedor em prantos. Nenhum filme, novela (pff), Caldeirão do marido da Angélica... Nem mesmo, pasmem, os noticiários. Nesse último caso, não é algo que eu sinta orgulho, mas o jornalismo pasteuriza tanto as tragédias que é difícil não estar anestesiado.
            Agora, uma cena como a da torcida do River Plate, desesperada com o rebaixamento do maior campeão argentino, ou a perplexidade de um chico, no jogo Velez Sarsfield x Peñãrol, quando o atacante do seu time escorregou na hora de bater um pênalti. Ou, ainda, o senhor, torcedor do Botafogo, um pacato advogado de segunda a sexta, que, em uma demonstração de ira indomável queimou a camisa do seu clube na goleada diante do Vasco, no ano passado. Isso me parte o coração. Porque é a demonstração de que as pessoas ainda se comovem por algo supérfluo. É a dor que vem da alma, aquela fumacinha que, dizem, existe dentro de nós.
            Ficar emocionado quando sua casa caiu, alguma pessoa querida morreu, o seu carro foi alvejado por uma chuva de granizo, o Amin Khamel morreu (tecla de ironia)... é fácil, amigos. Afinal, você está sendo diretamente afetado. Quando se perde uma perna, existe alguma outra opção que não ficar MUITO triste? Agora, sofrer pela derrota do seu time é uma escolha. Nenhuma ponte vai cair, sua vida não estará condenada, tampouco os ursos polares vão ficar extintos. Mas, mesmo assim, você fica triste pela entidade abstrata “time de futebol” e pelo seu orgulho ferido de torcedor.
            Admiro aquilo que foge da objetividade que tentam implantar como lei suprema da vida. Chorar por futebol diz sobre a capacidade humana de desenvolver paixões, um motivo para viver bem mais nobre do que dinheiro e status.
Mas se você, ainda assim, quiser enxerga o futebol como “os vinte e dois trouxas perseguindo a pelota”, fique a vontade. Eu não julgo. Porém, discordo no mais básico: os goleiros não correm atrás da bola, logo, seriam só vinte. E esse é o problema da matemática: ela se faz de certos e errados.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

20-05-11


Gaivota é pássaro de linhas retas
Salpicando o céu nublado
O mar, azul que só pode ser marinho
É composto de fragmentos esbranquiçados
As águas estão alvoroçadas
Pois os barcos estão aí,
Sempre aí
Para cortá-las.

Atravesso a ponte elefante de concreto
Em um desses escapes que nos levam a lugar algum:
De tanto flanar, Baudelaire morreu em Paris.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Pássaro Branco


Hoje, de manhã, eu vi um pássaro branco.
Saltitando pelo quintal
Entre pardais e ruídos radiofônicos
Um alento à sobriedade.
Em sua alvura, um contraste com um mundo
Do colorido promíscuo.

Na pureza que sua imagem invoca
O pássaro branco louva a liberdade
Pois só a transgressão de um canário
Cansado da apatia de sua gaiola
Dos três puleiros e nada mais
Nos proporciona seus vôos
De elegância exemplar.

Também hoje, mais tarde
Eu vi alvura
Pureza
Liberdade
Elegância
Morrerem abocanhados
Por um gato pardo.