sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Da chuva


Lá fora, a água caía indiferente ao tédio que causava. Pela janela, ele gostava de ver como a chuva deixava a paisagem turva. E de adivinhar caminho das gotas que deslizavam pelo vidro.

Quando mais jovem, costumava correr nos dias chuvosos. Então, ele aprendeu a ter medo de resfriado.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Discografia Comentada: "The Great Escape Artist" (2011) - Jane's Addiction

Nas próximas semanas, por tempo indeterminado, nas terças-feiras teremos reviews musicais nesse espaço. Essa "seção" também muda de nome, agora é "Discografia Comentada", não mais "Recomendada". As atualizações literárias continuarão. Sejamos perseverantes.

            Nas últimas semanas muito se tem falado em Perry Farrell, embora não pelo motivo mais adequado. O fundador/ organizador do Lollapalooza esteve na mídia brasileira por conta da versão tupiniquim de seu festival, no ano que vem, e do debate com Lobão (aquele que sobrevive de polêmicas há duas décadas). Melhor seriam que falassem de Farrell por causa do lançamento de The Great Escape Artist, lançado há poucas semanas.
            O Jane’s Addiction é referência básica para quem tem algum interesse na história do rock. Essa banda californiana é parte da retomada do estilo que ocorreu na virada dos anos 1980 para a década seguinte. Embora alguns desavisados digam que o Nirvana fez a revolução sozinho, é preciso lembrar: as grandes gravadoras, que nunca foram bobas, já investiam em bandas alternativas. Antes de Nevermind (1991), Soundgarden, Red Hot Chilli Peppers, Sonic Youth e Jane’s Addiction, entre outras, já tinham contratos.
            Em seus dois primeiros álbuns, o Jane’s Addiction soava explosivo. Músicas que iam da aceleração de um rock ancestral, à outras, com grandes viagens atmosféricas. De Nothing’s Shocking (1988), você pode conferir “Mountain Song” aqui. Já Ritual de lo Habitual (1990) continha o hit “Been Caught Steeling” e a não menos boa “Three Days”. “Aquilo sim era rock, bebê”, disse Christiane Torlone para o blog. Mentira. A reportagem não conseguiu entrar em contato com a atriz.
            As performances do grupo estavam à altura da música. Perry Farrell, um exótico pansexual, é bastante desinibido no palco, assim como o guitarrista Dave Navarro, poser como só ele. Tanta personalidade, claro, deu problema: depois dessa primeira fase promissora, o grupo se desintegrou, os músicos seguiram suas carreiras e, de vez em quando, se reúnem.
            Em The Great Escape Artist, a banda não soa com a mesma pegada. Também, pudera, os músicos já não são os jovens de antes. Não que se tenha que soar velho após os quarenta anos, mas também não precisa fingir-se de garotão – foi mal, Dinho Ouro Preto. A sonoridade também ficou mais limpa, coisa da tecnologia, que não para.
Mesmo assim, o Jane’s Addiction de outrora ainda pode ser reconhecido nos riffs de guitarra e nas boas melodias. Soa moderno, é verdade, mas com a identidade original. Indicado para uma época em que o rock, novamente, está ficando andrógeno. E quando os roqueiros estão visualmente parecidos com personagens de animes, sinal de alerta!
The Great Escape Artist é um cd que a gente escuta sem querer pular as faixas – o que indica uma banda honesta. Desconfie smpre daquelas que apresentam pérolas envoltas por material de má qualidade.
Se ficou curioso, dê uma conferida na música de trabalho, “Irresistible Force” aqui.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Discografia Recomendada: "Moon Pix" (1998) – Cat Power


Minha geração teve na infância a influência do He-Man. Além de uma série de peculiaridades que poderiam ser destacadas nesse desenho animado, lembro aqui de um padrão: os episódios terminavam sempre com uma situação engraçada, seguida de gargalhadas dos personagens principais.
Esse happy ending é um exemplo da formatação aplicada às aspirações de tantos. Se não estamos felizes, sinal de alerta, algo está errado. Nada vale a pena se não houver risada no fim. O que, no mínimo, é um tanto ingrato. Toda roda gigante tem pontos altos e pontos baixos.
Moon Pix, quarto álbum de Chan Marshall, também conhecida como Cat Power, não é sobre euforia. Pelo contrário, suas 11 faixas exalam introspecção. Sua sonoridade é crua, com a voz da cantora/ compositora acompanhada por poucos instrumentos, sempre discretos. Algo que soa bastante diferente de seu trabalho anterior, o mais experimental What Would the Community Think, de 1996.
A melodia vocal é quem guia os ouvintes em uma experiência sensorial de desaceleração. A bateria, quando aparece, apenas marca tempos arrastados, enquanto cordas de violão são dedilhadas cuidadosamente. Em alguns momentos, a voz de Cat Power é duplicada ou, em “He Turns Down”, é rivalizada por uma flauta. Mas prevalece, sempre. Chan Marshall é daquelas mulheres que, ao cantar, tornam-se musas instantaneamente. A aparência é secundária.
Desmembrar Moon Pix é quase um sacrilégio. As canções vão se ligando com grande coesão, formando uma obra única, de efeito arrebatador. Mesmo assim, o vídeo de “Cross Bones Style” percorreu “Lados B” de MTVs pelo mundo. E a versão de “Moonshiner”, famosa pela regravação de Bob Dylan (e fazer reinterpretações tornou-se posteriormente uma especialidade da moça) chamou a atenção dos folks de plantão. Em 1998, aos 26 anos, Cat Power fazia sua obra-prima.
A atmosfera do álbum é melancólica. Uma melancolia doce, sincera. Um “anti-fim de episódio do He-Man”. Pois não dá para terminar sempre gargalhando. É preciso nos observar para além do bem-estar. A tristeza pode não ser a meta de ninguém, mas deve-se reconhecer: é nela que somos verdadeiramente contemplativos.
Vale experimentar a tristeza. Não cultuando-a infantilmente, como fez o outrora numeroso movimento emo. Mas atentos para o intimismo que ela nos revela. É bom ficar a sós conosco mesmos. Até para observar o mundo de uma maneira mais sóbria.
Escutar Moon Pix pode auxiliar nessa missão. Ele é um dos momentos em que a dita “música alternativa” fez mais sentido. Pois a maioria ainda persegue as trilhas sonoras de churrasco.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Romantismo Revolucionário, cantos 1 e 2

Lá na rua onde eu moro,
Tão fazendo um viaduto
Modernidade o caralho
Quero mesmo é criar um burro.

A Lagoa da Pampulha
Fede pra daná
Vem Aécio, vem JK,
Pro progresso nóis cheirar.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Belo Horizonte à meia-noite


Vultos se movem nas sombras. Espectros dão risadas, que ressoam malignas envolvidas pelo silêncio de todo o resto. A urbanização mineira funciona e, na madrugada, não há trânsito.

Um sujeito surge e balbucia coisas inaudíveis. Esforço-me numa leitura labial. Fracassada. Ele segura um boné, parece se tratar de uma oferta. Faço minha cara de “foi mal, não tenho dinheiro”. E é verdade, do contrário estaria num taxi.

Seria um boné roubado? Ou uma artimanha para me roubar?

À (meia-) noite, todos os gatos são pardos (assaltantes em potencial), diz a sabedoria do assistir-Jornal-da-Globo-tomando-chocolate-quente-enquanto-o-mundo-lá-fora-é-todo-malvado.

É verdade, eu corro risco. Preciso ficar alerta. Consola-me o fato de assim ser a vida, por todos os lados, perigosa. Mas o maior dos riscos, ainda acredito, é morrer de tédio.

No céu não há estrelas, apenas prédios obscuros. Tampouco vejo carruagens ou automotivos dos anos 1920 para me transportar para qualquer “Era do Ouro”. Dou-me por satisfeito em adentrar o primeiro ônibus que me levará para casa. 

Vida pé-no-chão. Tudo que reluz geralmente é ouro de tolo.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Matemática Errada

Trinta e sete (37) abusivos graus cozinhando-a sem nenhum pudor.

Quarenta e duas (42) crianças zombeteiras remexendo-se em seus assentos, enquanto ela, no quadro, resolvia problemas matemáticos.

Sessenta e quatro (64) polutos seres humanos espremendo-a lascivamente no ônibus.

Um (01) lugar, afundado no colchão, ao seu lado. Vago.

Os números não formavam uma operação matemática. Mas Elizete queria rabiscá-los com caneta vermelha. Um (01) imenso X.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A miséria do autor

            A tela branca. As letras, que iam pipocando, lentamente e, depois, sendo apagadas, todas de uma vez. Essa rotina lhe dava ânsia. Ficar ali, horas a fio, costurando idéias que não conseguia desenvolver. Habermas, Glauber Rocha e quem mais viesse. Nada. Não dava liga.
            Estava cansado.
            E seu vulcão interno em atividade. Quase trinta e oito graus. Garganta arranhada. Inflamação e ânsia. Sonhava em pular numa banheira com gelo. Quem sabe, com o choque térmico, encontraria a inspiração. Já de tão longe perdida. Uma tarde de trabalho para pingados parágrafos mal alinhados.
Literariamente, a mesma tragédia. Um blog às moscas. Sem rumo. Atualizações. Sem razão de ser.
            Um banho frio, por que não? Qualquer coisa que aliviasse sua febre. Já que sua miséria interna, essa não tinha remédio.
Não há paracetamol que resolva a vida de um mal escritor.
Que persiste, Deus sabe porquê.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Reality...

            Francisco estava na cadeira de descanso. Esperava fazer a digestão para mergulhar na piscina. Estava isolado dos outros companheiros, que conversavam no interior da casa. Sentindo que o momento era oportuno, Tatyana aproximou-se dele:
            __E aí, se concentrando para a prova de hoje?
            __Não, só dando um tempo para entrar na piscina.
            __É, também vou entrar, mais tarde. Malhei de manhã para dar uma relaxada na água, agora.
            __Aham.
            __ Chicó, preciso falar algo contigo...
            __ Fala aí.
            __ Então, acho que você deve estar com raiva de mim, porque eu votei na Sassá e ela foi eliminada. Mas olha, quero te dizer que não foi nada pessoal, isso aqui é um jogo, e eu tive que votar nela. Nada contra vocês, não queria acabar com o casal da casa. Mas é que eu tinha que escolher alguém e ela foi a pessoa com quem menos tive afinidade...
            __De boa, Taty, não estou te julgando. Isso acontece, é a regra... Me dá um pouco da sua água?
            __ Claro, pode pegar.
            __A comida estava meio salgada hoje, né? Mas não liga, não fiquei com raiva de ninguém. Foi chato ir à votação do público junto com a Sassá. Nem tivemos chance de continuar juntos. Mas, de boa, eu não julgo ninguém. É o público, né?
            __É verdade. Mas bom saber que não ficou magoado. Não gosto de brigar com ninguém. Nos vemos mais tarde, então?
            __Você sabe onde eu moro... Hahaha...
            Taty foi embora e Francisco continuou na sua cadeira. Seus olhos estavam semicerrados para evitar a luz forte da vigorosa tarde. E ele pensava consigo. Não estava “de boa”. Taty e sua panela na casa não perdiam por esperar. Eles que combinavam votos, entre cochichos e troca de boatos. Envenenavam a casa com suas armações. A vez deles chegaria.
Francisco, motoboy, estava acostumado a dificuldades. Era à base de manobras arriscadas, buzinas nos ouvidos e ingestão de fumaça, que ganhava sua vida. Sempre tinha um preço. Agora, a chance da virada. Perdera Sassá no jogo, o amor de sua vida que conhecera há algumas semanas. Mas era uma provação.
No final, ele venceria. Ganharia um milhão de reais. Daria uma casa para sua mãe. Compraria uma cobertura para ele, na Barra da Tijuca. Casaria com Sassá. Ela desfilaria como madrinha de bateria em escola de samba. Ele gravaria um cd.Teriam filhos.  E coisa e tal.
... Novela.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Vocabulário ou Quando sobra o mais grave


Binóculo: instrumento para potencializar a visão em distância. Utilizado por visinhos indiscretos e em filmes de guerra com Chuck Norris.

Ciúme: temor que a pessoa amada desenvolva afeto por outro (a); amor, para além do saudável.

Helicóptero: abelha gigante de metal, com zumbido motorizado, que carrega espécimes humanos (policiais, jornalistas e abastados financeiramente, em geral).

Milionário: 1) aquele cujos bens materiais ultrapassam a quantia de um milhão de dólares estadunidenses; 2) parceiro de José Rico na dupla sertaneja Milionário & José Rico.

Traição: ser desleal com quem confia em você; ato de judasiscariotizar alguém.

Turbulência. Parado no alto, o helicóptero balança. Dentro, o milionário afrouxa a gravata. Usa um binóculo para vigiar os veículos que entram no motel. Tem ciúmes da esposa, acha que ela está o traindo. Avista um esportivo vermelho chegando na garagem. Do mesmo modelo do de sua mulher.
Se for ela, o milionário vai se jogar.
Tem farta conta bancária e, também, problemas psicológicos.

segunda-feira, 25 de julho de 2011