sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Canto do deslugar
Que tenha algo a ser descoberto
Um baú de risadas honestas
Ou amuletos para uma vida boa
Pode mesmo ser um objeto placebo
Só para, em sua busca, eu agridocicar
Esses dias da objetividade com aroma de bílis.
Todos os meus amigos estão velhos
Já não suportam a música alta
Nem procuram as possibilidades abertas
Que a noite resiste em insinuar
São almas batendo ponto
Na esquina designada por outros.
Adoraria que não buscassem nas minhas letras
Vestígios dos versos da moda
Ou de MPB revisitada
Rogo louvores aos malditos
Escarro na cara deles para tentar ser aceito
Sou muito anos noventa
Para essa geração Y.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Um Conto de Natal
O despertador gritava ensandecidamente, mas Papai Noel relutava em levantar. Era véspera de Natal, dia intenso no Pólo Norte. Qual saco levaria o quê, o itinerário a ser traçado, o esquema de distribuição dos presentes... tudo era definido naquele momento. Como um grande general, o bom velhinho tomava as rédeas e definia o passo a passo daquela longuíssima meia-noite que o aguardava. Assim era habitualmente, mas não naquele ano.
Era o primeiro Natal depois da morte da Mamãe Noel e ele sentia falta de sua esposa. A convivência dos dois não era livre de indisposições, a mulher não aceitava o pouco crédito que levava, apesar do toda a sua participação na preparação do Natal. O velho, por sua vez, conservador, achava que era assim que tinha de ser. Agora, sozinho no comando, ele se sentia perdido. Não encontrava motivação em seguir só.
Porém, ele precisava levantar. Tomou, aos resmungos, o café que uma duende havia preparado. Há tempos Papai Noel estava mal humorado, nem seus antidepressivos davam conta. Ralhou com os duendes, questionou a capacidade das renas. Pela primeira vez não haveria a Grande Festa de Pós-Natal, evento no qual compensava seus duendes pelo serviço intenso e não remunerado. Naquele ano, haveria folga e nada mais.
Noel não encontrava inspiração para trabalhar. A logística do trajeto da mágica natalina não se delineava fácil em sua mente. Praguejava contra o destino, que o incumbira de tamanha responsabilidade. Tudo que queria era ser um velhinho, aproveitando das filas com prioridade e da liberdade para deseducar os netos.
Então Rufus, um duende esperto, percebeu que o estresse de Papai Noel não seria tratado com remédios que não atingissem a alma. Buscou uma garrafa de vodca e disse para seu patrão: “Noel, se não dá para fazer o Natal do jeito que deve ser feito, que seja feito no jeito que der”. O patriarca natalino entendeu o recado. E pediu outra garrafa, pra garantir a magia.
Aquele ano ficou conhecido como “O Natal Surpresa”. O bom velhinho atrasou em algumas casas, trocou diversos presentes e não foram poucas as crianças que juraram ter visto Papai Noel tropeçando na árvore de Natal ou seu trenó em trajetos irregulares pelo céu. Mas foi uma noite diferente. E a festa do dia 26, então cancelada, aconteceu por dias.
Foi assim que Papai Noel, mais uma vez, salvou o Natal. Só que, desta vez, dele mesmo.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
O que vai ser quando crescer?
Sempre quis ser jogador de futebol. Porque eu sou bom, zé, você vai ver. Quando tô com a bola, ninguém tira ela de mim. Uns me chamam até de capeta dribladô, porque eu sou foda, mesmo. Vem gente de todo tamanho, aqueles fortões mesmo aqui da comunidade, e eu vou fazendo fila. Levanta um poeirão no campinho e os manés vão só caindo.
Uns me chamam de fominha. Sou mesmo, porra! Eu sou bom, melhor a bola comigo do que com quem não sabe jogar, né não? Vou driblando, driblando, até conseguir chutar pro gol. Sou artilheiro na maioria dos jogos, mas já me disseram que jogador tem que ter visão de jogo, sabe, passar a bola pros outros na hora certa. Eu não jogo assim.
Mesmo com esse problema, eu continuava querendo ser jogador de futebol. Eu sou baixinho, não sou inteligente, canto mal. Não vou virar ator, doutor, nem funkeiro. Mas num quero ser igual meu pai, que trabalha pra caralho e tá sempre na merda. A gente mora num barraco igual todo mundo, eu não quero isso não, tá louco.
Quero que todo mundo olhe pra mim com respeito, que me agrade. Que parem o que estiver fazendo pra me convidar pra almoçar, os pais querendo que eu case com as filhas deles, sabe, essas coisas. Igual o Macu, que mora aqui na rua. Ele é jogador e nem é muito bom, joga no Bangu. Mas todo mundo gosta dele, fala que devia estar em time melhor, pergunta de seleção. O Macu usa umas roupas legais, óculos escuro, é foda. E se fosse jogador de time grande, seria melhor.
É o que eu pensava, que ser jogador de futebol era o que eu queria. Aí teve semana passada e eu mudei de idéia. A polícia invadiu o morro, sabe, com força mesmo. Era só aquela correria nas ruas, um tanto de policial com aquelas armas bem mais poderosas que as dos traficantes. E aqueles caras que todo mundo tem medo aqui, que se mexe com irmã nossa a gente tem que ficar quieto, foram todos expulsos. Ou foram presos ou levaram bala. Porra, zé, aqueles polícias é que tem poder, eles que mandam quando querem e a gente tem que respeitar. Eles são fodas. Então, nem ligo de ser jogador fominha. Já decidi, quando eu crescer, vou ser do BOPE.
domingo, 21 de novembro de 2010
Viajante Solitário
Nas costas, a mochila pesada, uma bolsa ajeitada no ombro e, nas mãos, um milk shake e a passagem, que estendo ao motorista. Não devo ser uma das figuras mais apreciáveis nessa situação, mas ela escancara o quão despreocupado estou. Com tudo. Isso é o bom de viajar, rodeado de estranhos, é mais fácil ignorar o mundo ao seu redor.
Serão doze horas pela frente. Volta de Brasília para Belo Horizonte. Ônibus cheio, o que elimina a vã esperança de ter uma poltrona só para mim. Agora, espero somente que não seja nenhum folgado o que vá sentar ao meu lado, muito menos que ronque.
Na minha janela, tento ignorar o resto. As sociabilidades se formando nas poltronas ao redor, os afobados tropeçando rumo ao banheiro, o cheiro dos lanches sendo abertos. Inclusive a mulher que brada estar sendo assaltada pelo colega do seu lado. Ele retruca chamando-a de louca. Deixo o posicionamento para meus demais colegas de viagem. Bate-boca para os ávidos no Programa do Ratinho da vida real, prefiro traçar pensamentos que mal conseguem se fazer coesos.
A experiência da estrada é sempre valiosa. Porque no deslocamento físico encontramos, talvez, a metáfora que reproduzimos diariamente. Ir de encontro a algo, desconhecido ou não, carregando nossas expectativas de que “everything is gonna be all right”. Trazer na bagagem a idéia do recomeço, que nos purificará dos erros já cometidos. Ou, simplesmente, vivenciar esse mundo de idas e vindas, dinâmico. Aliviando-nos da angústia de não “se encaminhar”, é bom apreciar a certeza de que são muitos os caminhos para errarmos, como um bêbado voltando para casa de manhã.
Viajar é bom, principalmente quando não estamos impregnados pelas ilusões de certezas. Deixar nossa linha de pensamento ir se enroscando livremente. Sem pretender nem mesmo tirar inspiração para algum bom texto (o que, definitivamente, não acontece aqui). Certamente ainda há muito para se preocupar. Mas eu prefiro focar minha atenção na tarefa de trazer ilesas as duas plantas hidropônicas que levo de souvenir.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
A evidência do crime
Enfim, era um bairro pacato.
Era, no passado. Porque, então, surgiram eles.
Muitos.
E grandes.
Com rostos indiscretos, saltavam das tocas com o frenesi de seus olhos negros. Intimidavam a todos com seus guinchos pela noite, em seus movimentos sagazes no gramado do supermercado. Instalando em todos o incomodo. Só por existirem.
Pois os ratos não eram apenas moradores indesejados. Eles estavam ali escancarando a imperfeição do bairro. Nas sujeiras displicentemente deixadas pela rua. Nas poças de água pestilenta ignoradas. Na cozinha do mercado que os atraía. No esgoto de onde eles vinham. No lixo jogado em terrenos desocupados. Na herança do desleixo histórico quando essas ratazanas asiáticas vinham clandestinamente em navios portugueses. Os roedores diziam ao bairro que, por mais que planejassem suas rotinas na cadência do Clube da Esquina, haveria sempre o perigo do compasso se perder.
Então, certo dia, um pó azul claro, cor do céu em manhãs de domingos, apareceu por ali, nos buracos onde os invasores moravam. Era a cor da morte. O bairro sabia cuidar de seus incômodos. Bastava executá-los. Com bom veneno.
Os ratos, porém, não desapareceram. Seus cadáveres eram encontrados pelas ruas. Com seus tamanhos escandalosos. Seus olhos desfalecidos. E cheiro de decomposição. A evidência do crime. Lembrando às crianças e suas mães no caminho da creche, aos adolescentes na exuberância de seu descontrole hormonal, ao louco e aos que se exercitavam, o que eles não desejavam saber. Não existia perfeição.
domingo, 10 de outubro de 2010
O último dia de Tico Carvalho - parte final
Marina Carvalho (filha do músico): “Sim, almocei com meu pai naquele dia. Cheguei pouco depois de 1h da tarde no apartamento dele e esperei uma meia hora até ele chegar. Foi um almoço tranqüilo. Costumávamos marcar almoços juntos, nossa relação era muito boa. Eu estava tentando convencer ele a aumentar minha pensão, pois comecei uma nova graduação. Meu pai era cabeça dura, não aceitava que eu tivesse largado direito para fazer medicina e, agora, medicina para fazer artes cênicas. Uma personalidade difícil a do meu pai, mas linda, também. Era o jeito dele, depois de parecer irredutível, concordava comigo. Foi um bom almoço, rimos um pouco, mas tinha um tom saudosista ali que, na hora, eu não entendi...”
Ângela Maria (empregada doméstica): “Aí, a filha dele veio almoçar aqui. Não gosto dela, menina sonsa, meio esnobe. E discutiram, seu Tico não queria pagar a nova faculdade. A menina é mimada, inventa moda a toda hora, a mãe dá força e quem pagava era o seu Tico, né? No final, eles estavam bem. Era a filha única, seu Tico tinha muito luxo com ela, apesar de tudo.
Antônio Medeiros (empresário): “Conversei com o Tico por telefone naquela tarde. Estávamos preparando um cd novo e estruturando uma campanha de divulgação. Algo bem moderno, para esse público do twitter, da novidade. Tico Carvalho tem um potencial para público bem amplo e renovado, esse era nosso foco. Não adiantava ficar lançando discos para os ouvintes de sempre. Com tanta coisa ruim, né, por que não ajudar no aumento do nível das canções que essa moçada escuta? Pensei em versões do Tico para músicas jovens, pop, ficaria muito bom. Ele estava reticente, era tradicionalista. Eu tentava convencê-lo. Nossa conversa foi mais isso, essa discussão. Não resolvemos nada, por fim.”
Seu Rubinho (dono de quiosque): “De tarde o Tico voltou, no horário de sempre, 16:30, 17h. Aí, voltava com violão. Ficava naquela mesa, mais isolado, cantando baixinho e fazendo anotações. Acho que ele devia escrever pelo menos uma música por dia, às vezes mais, duas, três. A maioria, me falou, eram outros que gravavam, esses cantores que não sabem compor. As que ele gostava, iam para o cd dele. Ficava lá até anoitecer, às vezes ia embora bem tarde. Só que naquele dia...”
Ângela Maria: “Voltava já de noite da praia, tomava banho, comia uma coisa e ia para algum bar. Era a rotina dele. Tinha muitos amigos, sabe? Esses famosos, atores, escritores, outros músicos, gente importante, mesmo. Aí, sempre encontrava com os amigos. Nem marcavam nada, era sair pelas ruas e encontrar conhecidos. Todos gostavam dele. Naquela noite, ele não veio. Aí o Rubinho ligou.”
Seu Rubinho: “De repente, ele ficou azul, não conseguia respirar. Todo mundo assustou, a gente deixava o Tico em paz, trabalhando, né? Por isso ninguém viu de cara que ele estava mal, com alguma coisa entalada. Um pessoal que estava numa mesa mais perto diz que foi engasgo de “s”. Ele estava cantando, compondo, tudo baixinho. E o sotaque carioca, sabe, parece que ele carregou demais. Era o estilo dele, cantar com o “s” bem marcado, era bonito. Mas foi fatal. Só pode ser, ele engasgou nos “s”s.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
O último dia de Tico Carvalho
Ângela Maria (doméstica): “Já é pra falar? Ah... é, naquele dia eu cheguei 8:30 na casa do seu Tico, que é o horário que a gente combinava. Ele dormiu até umas 10h. Eu já tinha colocado a mesa do café. Ele gostava de cafezão, sabe, de novela mesmo. Suco, leite, bolos, pão, até queijo, ele fazia questão de tudo. Mas ele não acordou muito bem, acho que tava de ressaca, preferiu tomar Coca Cola. Ficou lá quieto, seu Tico não é de falar durante o café. Cantava baixinho e às vezes fazia algumas anotações. Comeu pouco e, quando levantou, brincou um pouco comigo. Sabe, eu trabalho com ele já tem algum tempo, a gente tinha alguma liberdade. Então, me pareceu que ele estava bem, que era só ressaca, mesmo. Perguntei o que ia querer para o almoço e ele pediu coisa simples, bife como saladas e purê. Seu Tico saiu já era umas 11 horas. Foi andar na praia. Ele sempre fazia isso”
Seu Rubinho (dono de quiosque): “O Tico vinha duas vezes por dia no meu quiosque. De manhã, dizia que estava buscando inspiração. Não trazia o violão, geralmente estava de bermuda, camisa meio desabotoada e com os cabelos soltos. Fazia uma caminhada e aqui era o ponto final. Parava, pedia uma caipirinha e ficava olhando para a praia. Mexia com algumas das meninas aqui do Leblon, jogava uma altinha com os moleques, ficava curtindo a manhã. Tinha um caderno que ele sempre trazia e anotava algumas coisas. Naquele dia, ele não estava muito disposto, nem cantar as moças ele cantou. Mas escreveu bastante, devia estar trabalhando com alguma coisa. Era um barato ver ele aqui, posso dizer que pelo menos metade dos discos dele foram compostos ali, ó, naquela mesa.”
Clara Martins (promoter): “Ai, nem gosto de lembrar! É, eu falei com ele naquele dia, mas olha, tô arrepiada de pensar nisso! Liguei para ele e marcamos de nos encontrar naquele quiosque daquele senhor, Rubens. Estávamos trabalhando num projeto, ai, será que eu falo? Ah, agora tanto faz, né? Ia ser um desfile, de moda bem carioca, praiana mesmo, sabe? E ele ia fazer a trilha. Ia ficar perfeito, né? As músicas dele, a moda, muito lindo. Encontrei com ele ali, meio dia e meia, mais ou menos. O dia estava ótimo! E o Ti tinha tantas idéias bacanas! Ai, que horrível isso tudo... Chamei ele para almoçar comigo, num hotel ali perto, mas ele disse que ainda precisava pensar em outras músicas. Se despediu com um “nos vemos em outra oportunidade”. Olha só! Poxa, Ti, vai ser em outro plano, mas vamos nos ver, sim.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Uma ressurreição para o MC Lobo Mau
Porém, estaria por vir uma ressurreição? Existia uma esperança. Nos últimos meses, alguns companheiros do movimento funk estavam sendo recuperados por promotores de bailes. Surgia uma onda retrô. Lobo Mau, nessa expectativa, teve uma grata surpresa quando um programa de tv o convidou para um número ao vivo. Transmissão para todo o Brasil, num canal que, se não era dos grandes, ao menos era um médio bem sucedido. Tudo para ser um trampolim para uma volta triunfal.
No camarim, alguma apreensão. Há três anos contados não se apresentava em público. Os versos e os passos da dança permaneciam bem vivos em sua memória, não os esqueceria jamais. O corpo, em contrapartida, era um problema. Claudinei engordara cerca de 15 quilos desde seu período áureo e a voz, que nunca fora grandiosa, estava ainda mais desgastada. A ansiedade ele controlava com generosos goles de uísque, costume construído quando seu hit o fazia faturar mais do que sonhara. Só que, na medida em que a fama foi se esvaindo, o uísque se tornava menos envelhecido, menos escocês. Só o consumo, porém, continuava a fartas doses.
Ia dar certo, ele sabia. E como esperava por isso! Desde que os shows escacearam, Claudinei virara empresário, administrava um bar e uma mercearia em sua comunidade. Mas odiava aquilo. Fazer contas era insuportável. Era feliz quando podia deixar R$50,00 para as garçonetes que o atendiam bem. Agora, pechinchava até no salário dos seus funcionários. Não era a vida que queria.
Então, a apresentadora anunciou e o MC Lobo Mau veio ao palco. Cantou e dançou seu grande sucesso com tudo o que tinha. O público o acompanhava. Quando a música acabasse, pediria para cantar uma música inédita, versos em que vinha trabalhando recentemente. Lobo Mau sonhava alto, já planejava um novo cd. Ressurgir.
O programa de tv, entretanto, tinha outros planos. Depois de executar “O Lobo Mau quer comer a Chapeuzinho”, a apresentadora chamou outra convidada ao palco. Um rosto bem conhecido por Claudinei. Não só o rosto. A grande atração do programa não era nenhum funk recuperado, mas a acusação de paternidade não reconhecida. Nada de batidão, o que se ouviria na próxima hora eram ataques morais. E, acuado, o Lobo Mau percebeu que seria preciso mais do que dentes grandes para recuperar seu papel nesse conto de fadas. Com mais uma boca para alimentar, começaria a trabalhar mais cedo.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Discografia recomendada: Rise to your knees – Meat Puppets

Mas nos anos 1980 não era assim. Com o pop cada vez mais forte, o hard rock ganhando um contorno extremamente cafona (adjetivo que serve para toda a década) e a onda punk diluída, algumas bandas nos Estados Unidos faziam um som bastante desalinhado em relação ao que tocava na rádio. Eram elas Sonic Youth, Dinosaur Jr., Big Black, Pixies... uma legião. É também o caso do Meat Puppets, grupo de Phoenix, Arizona. Unindo folk ao punk, a banda liderada pelos irmãos Chris e Curt Kirkwood, lançou diversos bons álbuns naquela década, destacando-se o clássico Meat Puppets II.
Nos anos 1990 eles assinaram com uma grande gravadora e, após participarem do Unppluged in NY do Nirvana, alcançaram algum sucesso – moderado, a bem da verdade. É de 1995 o ótimo Too High to Die, talvez o registro do trio e “Backwater” um semi hit.
Depois de passar por algumas trocas na formação, alguns períodos inativos e com algumas prisões de Chris Kirkwood, os Meat Puppets voltaram nos anos 2000. Outra dessas voltas caça-níqueis que tanto se arma por aí? Eu duvido, pois o grupo não é um nome tão reconhecido para ganhar malas de dinheiro por uma reunião. Voltaram, certamente, porque não tinham nada de melhor para fazer de suas vidas. Até porque, o álbum que marca a volta, Rise to Your Knees é um belo registro, pouca gente faz algo melhor da vida, mesmo! Com belos arranjos, músicas mais intimistas e canções em construídas, esse cd poderia estar em listas dos melhores da década, se os críticos não estivessem tão preocupados que a última novidade do My Space. Porque a crítica musical reproduz a limitação da sociedade de só entender como digno de atenção o novo. Qualidade por qualidade, os “velhinhos” do Meat Puppets valem mais, bem mais, do que qualquer CSS e derivados. Qualidade confirmada em seu último álbum, Sewn Together, de 2009.
Aos interessados, fica a indicação de Rise to Your Knees e, abaixo, um link para o clipe de “On the Rise”.
http://www.youtube.com/watch?v=CnOD0oDAXVU
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Como não me tornei jogador de futebol
A história seria assim: anos nove anos, meus pais me colocaram numa escolinha de futebol. Apesar de magro, logo comecei a me destacar jogando na defesa, com desarmes cirúrgicos. Fui me aperfeiçoando e me tornei um zagueiro de classe. Era disputado na cidade em campeonatos de várzea e vencedor com o time do colégio. Aos dezesseis anos, participei de peneira no Guarani, de Campinas. Passei e, dois anos depois, me tornei profissional. Virei pagodeiro e mulherengo. Joguei por clubes grandes do Brasil e atuei por equipes medianas da França e da Itália. Encerrei minha carreira numa volta às origens, jogando sem salário pelo Atlético Tricordiano.
Obviamente, se assim tivesse sido, haveria um “não” sobrando no título. O leitor interessado na “verdade” pode guardar só a primeira frase ali de cima, a da escolinha de futebol. Nela, aprendi fundamentos como cabecear, tocar, correr com a bola, entre outros. Participei de amistosos pelo sul de Minas e até de um internacional, contra um time japonês que excursionava pelo Brasil. Recebi várias palestras do tipo “sou vivo, não uso drogas”, inclusive uma, no CT do Palmeiras, com o Profexô, conhecido pela Luciana Gimenez como “Luxesburger”. Aprendi que mesmo uma água de galão com gosto estranho podia ser melhor do que Coca-Cola quando se jogava no sol das 14 horas. Que os seus colegas te chamam de “baixinho” mesmo que sejam menores do que você. E que vestiários cheiram a urina.
Mas eu não seria um jogador de futebol. Sequer existia essa ilusão para o treinador, meus pais e mesmo para mim. Meu desafio era ao menos jogar dignamente – o que até chegou a ocorrer quando, anos depois, no futsal, eu era um fixo razoável com chances de ir para o time do colégio. Só que nunca levei o menor jeito com esportes, o que não surpreende ninguém que me conheça. E essa experiência de escolinha tinha tudo para ser traumática. Eu não jogava bem, era mais novo que os outros garotos, era bastante protegido (um desses “meninos de apartamento”, embora morasse em casa) e sofro de timidez crônica. Nesse contexto, eram consideráveis as chances de eu ser esmagado por tal ambiente. Não foi o que ocorreu, entretanto. Embora não fizesse “amigos do peito” eu tinha uma boa relação com a maioria dos colegas. Mesmo sem me integrar plenamente, consegui me adaptar ao “mundo do futebol infantil”.
E assim costuma ser. Apesar da minha “total falta de malemolência”, nunca fui daqueles meninos que lancham na sala de aula, com a companhia dos girinos da aula de ciências. Integração social nunca foi o meu forte, mas não me vejo levando algum episódio de exclusão para um divã. De algum modo, eu sobrevivo.
Não tenho uma história gloriosa como a do primeiro parágrafo. Virei um escritorzinho voluntário de horas vagas e um “dente-de-leite” na modalidade intelectual. Estou em contagem regressiva para adentrar numa crise homérica do tipo “o que eu faço agora? eu preciso de um emprego”. Quando ela se estabelecer, espero lembrar que, por mais feio que o diabo seja, até que nossa vida termine (tabelinha com o texto anterior!) a gente sobrevive. Se não der para fazê-lo bem, fica como meta alcançar a dignidade.