quinta-feira, 31 de março de 2011
Projeto Pagode em Prosa #2
quinta-feira, 24 de março de 2011
Projeto "Pagode em Prosa" #1
Só que, naquela sexta, o mundo deveria estar mais errado que normal. A loira, não fazia gestos irritados para ele. Nem beijava alguém para despistá-lo. Não. Por incrível que pareça, como nunca antes naquele bar, a mulher dava mostras de estar gostando. Até sorria para ele. Então, Claudinei foi para o ataque. Fazer história.
Na terceira música que dançaram juntos, depois de dizer que se chamava Ruth e era secretária, a loira foi direta:
__ Você é pedreiro, então? Estou com um problema no meu encanamento. Sei que não é seu trabalho, mas, não quer ir visitar meu apê e dar uma olhada nisso para mim? Amanhã?
Claudinei, sem reação, gaguejando, tentou dissimular sua surpresa em ser convidado para a casa de uma mulher. Tentou ser discreto:
__ De... demorô!
Parecia sonho. A loira deu seu telefone, explicou onde morava e foi embora. A situação já o fazia delirar. Ao que tudo indicava, venceria a “seca” que já durava um bom tempo e com a mulher mais espetacular que ele vira naquele bar. Quiçá ao vivo. Já estava apaixonado.
E, no sábado, ele cancelou um churrasco em que iria e foi para o prédio de Ruth. Um bom bairro. Levou também suas ferramentas, pois, vai que tinha mesmo algum encanamento para arrumar?
De fatp. Ruth deixou-o na cozinha, ocupado com uma pia que parecia ter todos os entulhos do mundo. Ela ficou na sala, assistindo tevê. Às vezes, passava para o quarto, e Claudinei ficava perdido em suas pernas, seu gingado, seu short curto. Ficava aceso. Ela lhe trazia água, dava alguns sorrisos...
Serviço terminado, a tarde já quase indo embora, Ruth convidou Claudinei para ir à sala. Ofereceu-lhe whisky:
__ Nossa, cansado como estou, vou capotar aqui se tomar isso.
__ Não tem problema, tem espaço na minha cama para nós dois...
Pronto, era a deixa que ele queria. A bebida desceu gelada, mas a companhia da moça o esquentava. E uma coisa leva à outra. Foram para o quarto e, enquanto se beijavam, Claudinei pensava na injustiça que era não poder tirar uma foto dela assim, sua, e mostrar para a turma o mulherão que estava pegando.
Até que, Ruth tomou a iniciativa e se despiu. E, em seu corpo feminino, algo estranho o encarara. Um órgão que, definitivamente, ele não esperava encontrar ali. Claudinei foi recuando, assustado, sem saber o que fazer. Os segundos mais longos de sua vida. Ruth deu uma risada e logo apareceram algumas pessoas com câmeras e microfones. Ele havia caído numa pegadinha bem obscena. Queriam gravar seu rosto de espanto diante “daquilo”. Conseguiram. Se ele queria que os amigos o vissem com a loira, seu desejo estava atendido.
Desiludido, só restou a Claudinei voltar para casa. Tinha pensado que viveria uma história de amor. Mas era cilada.
terça-feira, 22 de março de 2011
#microconto 3
quarta-feira, 16 de março de 2011
#microconto 2
quarta-feira, 9 de março de 2011
#microconto
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Sem Título #3
Trabalho numa grande loja de eletrodomésticos. Então, sabe como é, né, sou atendente, tenho que ficar o dia todo conversando com as pessoas, sendo agradável e tal. E sempre é muito difícil. Tem gente demais no mundo! E pior, gente pobre! Caraca, como tem gente pobre comprando tv, dvd, celular, essas coisas. Essa facilidade que a loja dá, divide em muitas vezes, meses e meses pagando uma miséria. Aí, chove pobre interessado.
O pior é que a maioria só vem, entra, fica olhando, perguntando, te aluga por meia hora e vai embora. E não compra, me desculpa a palavra, porra nenhuma! Todo dia tem uns dez desses. Sem contar que eles vêm, com aquelas roupinhas de feirante, aquelas conversinhas sem graças, sem falar nos que já entram comendo! Odeio comprador que vem comendo porcarias na minha frente, ali é um ambiente de negociação, custa ser ao menos um pouquinho formal?
Aí, não bastasse fazer isso por nove horas pra ganhar uma mixaria, ainda tem a volta pra casa. Horário de pico, ponto de ônibus lotado. Quando o coletivo aparece, é como se soltasse notas de 100 reais, o povo apronta uma correria, parece que é a vida deles que está em jogo. Aí você entra, fica apertado, em pé, e pra quê? Agüentar mais conversa de pobre, ou então pobre escutando aquelas músicas horrorosas no celular, ou, mesmo que quieto, pobre espalhando aqueles perfumes de quinta. É brincadeira eu ter que passar por isso, viu. Fico ali, com meu fone de ouvido, fingindo que morri, é um tempo que demora tanto a passar que às vezes parece mesmo que eu morri e estou no inferno.
Mas eu quero sair dessa vida. Não dá. Mandei meu currículo para umas lojas aí, essas de shopping, sabe, coisa mais chique. Trabalhar em lugar com ar condicionado, cliente selecionado, eu mereço. Né, Deus, por favor...
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Canto do deslugar
Que tenha algo a ser descoberto
Um baú de risadas honestas
Ou amuletos para uma vida boa
Pode mesmo ser um objeto placebo
Só para, em sua busca, eu agridocicar
Esses dias da objetividade com aroma de bílis.
Todos os meus amigos estão velhos
Já não suportam a música alta
Nem procuram as possibilidades abertas
Que a noite resiste em insinuar
São almas batendo ponto
Na esquina designada por outros.
Adoraria que não buscassem nas minhas letras
Vestígios dos versos da moda
Ou de MPB revisitada
Rogo louvores aos malditos
Escarro na cara deles para tentar ser aceito
Sou muito anos noventa
Para essa geração Y.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Um Conto de Natal
O despertador gritava ensandecidamente, mas Papai Noel relutava em levantar. Era véspera de Natal, dia intenso no Pólo Norte. Qual saco levaria o quê, o itinerário a ser traçado, o esquema de distribuição dos presentes... tudo era definido naquele momento. Como um grande general, o bom velhinho tomava as rédeas e definia o passo a passo daquela longuíssima meia-noite que o aguardava. Assim era habitualmente, mas não naquele ano.
Era o primeiro Natal depois da morte da Mamãe Noel e ele sentia falta de sua esposa. A convivência dos dois não era livre de indisposições, a mulher não aceitava o pouco crédito que levava, apesar do toda a sua participação na preparação do Natal. O velho, por sua vez, conservador, achava que era assim que tinha de ser. Agora, sozinho no comando, ele se sentia perdido. Não encontrava motivação em seguir só.
Porém, ele precisava levantar. Tomou, aos resmungos, o café que uma duende havia preparado. Há tempos Papai Noel estava mal humorado, nem seus antidepressivos davam conta. Ralhou com os duendes, questionou a capacidade das renas. Pela primeira vez não haveria a Grande Festa de Pós-Natal, evento no qual compensava seus duendes pelo serviço intenso e não remunerado. Naquele ano, haveria folga e nada mais.
Noel não encontrava inspiração para trabalhar. A logística do trajeto da mágica natalina não se delineava fácil em sua mente. Praguejava contra o destino, que o incumbira de tamanha responsabilidade. Tudo que queria era ser um velhinho, aproveitando das filas com prioridade e da liberdade para deseducar os netos.
Então Rufus, um duende esperto, percebeu que o estresse de Papai Noel não seria tratado com remédios que não atingissem a alma. Buscou uma garrafa de vodca e disse para seu patrão: “Noel, se não dá para fazer o Natal do jeito que deve ser feito, que seja feito no jeito que der”. O patriarca natalino entendeu o recado. E pediu outra garrafa, pra garantir a magia.
Aquele ano ficou conhecido como “O Natal Surpresa”. O bom velhinho atrasou em algumas casas, trocou diversos presentes e não foram poucas as crianças que juraram ter visto Papai Noel tropeçando na árvore de Natal ou seu trenó em trajetos irregulares pelo céu. Mas foi uma noite diferente. E a festa do dia 26, então cancelada, aconteceu por dias.
Foi assim que Papai Noel, mais uma vez, salvou o Natal. Só que, desta vez, dele mesmo.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
O que vai ser quando crescer?
Sempre quis ser jogador de futebol. Porque eu sou bom, zé, você vai ver. Quando tô com a bola, ninguém tira ela de mim. Uns me chamam até de capeta dribladô, porque eu sou foda, mesmo. Vem gente de todo tamanho, aqueles fortões mesmo aqui da comunidade, e eu vou fazendo fila. Levanta um poeirão no campinho e os manés vão só caindo.
Uns me chamam de fominha. Sou mesmo, porra! Eu sou bom, melhor a bola comigo do que com quem não sabe jogar, né não? Vou driblando, driblando, até conseguir chutar pro gol. Sou artilheiro na maioria dos jogos, mas já me disseram que jogador tem que ter visão de jogo, sabe, passar a bola pros outros na hora certa. Eu não jogo assim.
Mesmo com esse problema, eu continuava querendo ser jogador de futebol. Eu sou baixinho, não sou inteligente, canto mal. Não vou virar ator, doutor, nem funkeiro. Mas num quero ser igual meu pai, que trabalha pra caralho e tá sempre na merda. A gente mora num barraco igual todo mundo, eu não quero isso não, tá louco.
Quero que todo mundo olhe pra mim com respeito, que me agrade. Que parem o que estiver fazendo pra me convidar pra almoçar, os pais querendo que eu case com as filhas deles, sabe, essas coisas. Igual o Macu, que mora aqui na rua. Ele é jogador e nem é muito bom, joga no Bangu. Mas todo mundo gosta dele, fala que devia estar em time melhor, pergunta de seleção. O Macu usa umas roupas legais, óculos escuro, é foda. E se fosse jogador de time grande, seria melhor.
É o que eu pensava, que ser jogador de futebol era o que eu queria. Aí teve semana passada e eu mudei de idéia. A polícia invadiu o morro, sabe, com força mesmo. Era só aquela correria nas ruas, um tanto de policial com aquelas armas bem mais poderosas que as dos traficantes. E aqueles caras que todo mundo tem medo aqui, que se mexe com irmã nossa a gente tem que ficar quieto, foram todos expulsos. Ou foram presos ou levaram bala. Porra, zé, aqueles polícias é que tem poder, eles que mandam quando querem e a gente tem que respeitar. Eles são fodas. Então, nem ligo de ser jogador fominha. Já decidi, quando eu crescer, vou ser do BOPE.
domingo, 21 de novembro de 2010
Viajante Solitário
Nas costas, a mochila pesada, uma bolsa ajeitada no ombro e, nas mãos, um milk shake e a passagem, que estendo ao motorista. Não devo ser uma das figuras mais apreciáveis nessa situação, mas ela escancara o quão despreocupado estou. Com tudo. Isso é o bom de viajar, rodeado de estranhos, é mais fácil ignorar o mundo ao seu redor.
Serão doze horas pela frente. Volta de Brasília para Belo Horizonte. Ônibus cheio, o que elimina a vã esperança de ter uma poltrona só para mim. Agora, espero somente que não seja nenhum folgado o que vá sentar ao meu lado, muito menos que ronque.
Na minha janela, tento ignorar o resto. As sociabilidades se formando nas poltronas ao redor, os afobados tropeçando rumo ao banheiro, o cheiro dos lanches sendo abertos. Inclusive a mulher que brada estar sendo assaltada pelo colega do seu lado. Ele retruca chamando-a de louca. Deixo o posicionamento para meus demais colegas de viagem. Bate-boca para os ávidos no Programa do Ratinho da vida real, prefiro traçar pensamentos que mal conseguem se fazer coesos.
A experiência da estrada é sempre valiosa. Porque no deslocamento físico encontramos, talvez, a metáfora que reproduzimos diariamente. Ir de encontro a algo, desconhecido ou não, carregando nossas expectativas de que “everything is gonna be all right”. Trazer na bagagem a idéia do recomeço, que nos purificará dos erros já cometidos. Ou, simplesmente, vivenciar esse mundo de idas e vindas, dinâmico. Aliviando-nos da angústia de não “se encaminhar”, é bom apreciar a certeza de que são muitos os caminhos para errarmos, como um bêbado voltando para casa de manhã.
Viajar é bom, principalmente quando não estamos impregnados pelas ilusões de certezas. Deixar nossa linha de pensamento ir se enroscando livremente. Sem pretender nem mesmo tirar inspiração para algum bom texto (o que, definitivamente, não acontece aqui). Certamente ainda há muito para se preocupar. Mas eu prefiro focar minha atenção na tarefa de trazer ilesas as duas plantas hidropônicas que levo de souvenir.