quarta-feira, 27 de abril de 2011

Poemeto do Viajante

O bilhete não me dá opção
Poltrona 40, corredor
Ao lado do banheiro químico.

Quando criança, eu era feliz e engraçadinho
De lá para cá, em algum momento,
Eu devo ter errado.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

#microconto 4

Deslizava a faca na barriga suína e vibrava quando os órgãos do cadáver saltavam para fora. Era seu trabalho e ele o adorava.
Não tinha namorada. Talvez não fosse coincidência.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Projeto "Pagode em Prosa" #3

Luiz Carlos sabia que seu trabalho era, possivelmente, um dos mais chatos do mundo. Fazia clipping. Uma formação em jornalismo, discussões e discussões sobre as novas mídias e as interações contemporâneas, em salas de aula e corredores universitários, para ficar ali, selecionando notícias. Fazendo recortes para clientes. Não era seu sonho de consumo. Ao menos, havia algumas vantagens. Como estar on line no Messenger o dia todo e responder a seus emails assim que os recebesse. Afinal, seu chefe, mesmo que quisesse, não era onipresente. Porém, naquela terça, ele viu em sua caixa de mensagens o nome de Lídia. Ficou temeroso. Luiz Carlos, Há quanto tempo, ein? A caixa postal do seu celular deve estar com problemas, não te dá os recados das ligações que faço. Mas acho que internet você utiliza, pois vejo suas atualizações no Facebook... Olha, Luiz Carlos, vou ser direta. Estou te escrevendo para ser sincera. Quero dizer que eu lamento, e lamento muito. Me entristece pensar que tudo que nós vivemos não significou nada para você. Que aquela relação maravilhosa que a gente teve, tudo que sonhamos juntos, no fim das contas, não foi mais valiosa que seu egoísmo. Pois você é isso, um egoísta. Quer ser um garoto para sempre, não ter compromisso com ninguém e com nada? Também me culpo. Por ter sido tão besta e me iludido. Achei que a paixão, aquela loucura toda que vivemos, significaria algo para você. Ainda não entendo. Foi tão fácil esquecer aqueles dias inteiros que passamos juntos, trancados em casa, sem dar a mínima para o resto mundo? Os momentos que vivemos, nossas viagens... Hoje vejo nossas fotos e quase choro por lembrar que você, do nada jogou tudo fora. Mas eu sei que você não está bem. Eu te dava alegria, te completava. Juntos éramos fortes, mas separados, você é só você, não é nada. Porque eu, Luiz Carlos, agora estou namorando, tenho um outro amor. Alguém que me valoriza e com quem, eu tenho certeza, serei feliz. Já você, achou que estava sendo o maioral ao terminar comigo? Foi você quem me perdeu. Pena pra você. Apesar de tudo, Luiz Carlos, eu não tenho ódio de você. Esse é um sentimento muito pequeno para mim. E você não merece que eu me rebaixe. Não te quero mal, nem bem. Tenho indiferença. É isso que eu precisava dizer. Passe bem, Lídia Luiz Carlos leu. E releu. E quase riu. Mas não, a notícia não era boa. Ele adoraria acreditar que o relacionamento mencioado no email significasse que enfim terminariam os telefonemas mudos que recebia. Que a sensação de ser perseguido pelas ruas acabaria. Que seus amigos não mais seriam interrogados a respeito de sua vida. Mas não. Um email daqueles, enviado às 3:46h de uma madrugada de segunda para terça, falava por si mesmo.


Canção homenageada:

quinta-feira, 31 de março de 2011

Projeto Pagode em Prosa #2

O morro era íngreme, difícil para subir de bicicleta. Mas não para Cássio, mesmo após um dia cansativo de treino. Em seus 16 anos, algo que ele aprendeu era que ser forte era questão de escolha. Não era bom no futebol, então foi para o vôlei e virou capitão do time do colégio. Estudar não era sua atividade predileta, assim, Cássio compensava esse fato com boas amizades, que o salvavam nos trabalhos escolares e nas colas para as provas. Como aquele morro estaria no seu caminho para casa, ou seja, eles se encontrariam diariamente, tratou de criar forças nas pernas para superá-lo. Mas, apesar dessa jovem e bem construída vida, da popularidade entre os colegas e da atenção de seus pais, ele sentia no peito uma dor até então desconhecida. Cássio estava triste. E o motivo atendia por um nome: Marina. Sua namorada há mais de um ano, a garota resolveu que queria renovar sua vida. Seus pais iriam transferi-la para um colégio particular, então, Marina pensava que o ideal era terminar seu relacionamento. Era nova demais para compromissos. Orgulhoso, Cássio aceitou o fim do namoro sem reclamar. Mas, por dentro, estava destruído. Ele, que pensava que suas piores punições eram as de praxe, como ser proibido de jogar vôlei ou ficar depois das aulas arrumando alguma bagunça feita por ele, conhecia agora seu pior castigo. E não tinha feito nada para merecê-lo. Ou tinha? Será que ele não tinha sido um bom namorado? Ou ela estava interessada em outro? Sua mente estava confusa. Sentia a falta de Marina, era difícil se imaginar feliz sem ela. Não tinha ânimos para mais nada. Enquanto pedalava, cada vez mais forte, ele via a lua, A noite começava a cair. Era lua crescente, a mais elegante dentre as quatro fases. Cássio, que não era de perder tempo com essas coisas, ficou a admirá-la. Talvez Marina também o fizesse e, mesmo longe, eles estariam unidos por aquele astro. Diante dessa possibilidade, ele se concentrou, pensou em todo amor que sentia por sua garota, na esperança de que a lua, sua cúmplice, o transmitisse para ela. Eram tão felizes juntos, alguém tinha que lembrar Marina disso. Que fosse a lua, então.Enfim, o morro terminou. Ofegante, Cássio resolver desviar-se do caminho de casa. Pois, por mais que contasse com a ajuda da lua para dar tal recado, talvez mandar flores também fosse uma boa idéia. Só pra garantir.


Canção homenageada: "Recado à minha amada (Lua vai)" - Katinguelê

quinta-feira, 24 de março de 2011

Projeto "Pagode em Prosa" #1

Lá estava Claudinei, no bar de sempre, sentado no balcão, flertando com uma loira. Ela vestia uma blusinha apertada e uma saia esvoaçante. Pernas espetaculares e seios fartos. Flertar com alguma mulher era algo que Claudinei sempre fazia. Elas é que raramente flertavam de volta.
Só que, naquela sexta, o mundo deveria estar mais errado que normal. A loira, não fazia gestos irritados para ele. Nem beijava alguém para despistá-lo. Não. Por incrível que pareça, como nunca antes naquele bar, a mulher dava mostras de estar gostando. Até sorria para ele. Então, Claudinei foi para o ataque. Fazer história.
Na terceira música que dançaram juntos, depois de dizer que se chamava Ruth e era secretária, a loira foi direta:
__ Você é pedreiro, então? Estou com um problema no meu encanamento. Sei que não é seu trabalho, mas, não quer ir visitar meu apê e dar uma olhada nisso para mim? Amanhã?
Claudinei, sem reação, gaguejando, tentou dissimular sua surpresa em ser convidado para a casa de uma mulher. Tentou ser discreto:
__ De... demorô!
Parecia sonho. A loira deu seu telefone, explicou onde morava e foi embora. A situação já o fazia delirar. Ao que tudo indicava, venceria a “seca” que já durava um bom tempo e com a mulher mais espetacular que ele vira naquele bar. Quiçá ao vivo. Já estava apaixonado.
E, no sábado, ele cancelou um churrasco em que iria e foi para o prédio de Ruth. Um bom bairro. Levou também suas ferramentas, pois, vai que tinha mesmo algum encanamento para arrumar?
De fatp. Ruth deixou-o na cozinha, ocupado com uma pia que parecia ter todos os entulhos do mundo. Ela ficou na sala, assistindo tevê. Às vezes, passava para o quarto, e Claudinei ficava perdido em suas pernas, seu gingado, seu short curto. Ficava aceso. Ela lhe trazia água, dava alguns sorrisos...
Serviço terminado, a tarde já quase indo embora, Ruth convidou Claudinei para ir à sala. Ofereceu-lhe whisky:
__ Nossa, cansado como estou, vou capotar aqui se tomar isso.
__ Não tem problema, tem espaço na minha cama para nós dois...
Pronto, era a deixa que ele queria. A bebida desceu gelada, mas a companhia da moça o esquentava. E uma coisa leva à outra. Foram para o quarto e, enquanto se beijavam, Claudinei pensava na injustiça que era não poder tirar uma foto dela assim, sua, e mostrar para a turma o mulherão que estava pegando.
Até que, Ruth tomou a iniciativa e se despiu. E, em seu corpo feminino, algo estranho o encarara. Um órgão que, definitivamente, ele não esperava encontrar ali. Claudinei foi recuando, assustado, sem saber o que fazer. Os segundos mais longos de sua vida. Ruth deu uma risada e logo apareceram algumas pessoas com câmeras e microfones. Ele havia caído numa pegadinha bem obscena. Queriam gravar seu rosto de espanto diante “daquilo”. Conseguiram. Se ele queria que os amigos o vissem com a loira, seu desejo estava atendido.
Desiludido, só restou a Claudinei voltar para casa. Tinha pensado que viveria uma história de amor. Mas era cilada.
(Canção homenageada: Molejo - "Cilada")

terça-feira, 22 de março de 2011

#microconto 3

Sua tarefa era ficar na esquina, cuidando da movimentação, enquanto os operários a violavam. A moça? Não. A rua. Em pouco tempo, pouco restaria dela.

quarta-feira, 16 de março de 2011

#microconto 2

Fecho os olhos e o motor do ônibus parece um mantra entorpecente. Pela janela, rodas dos carros em sentido contrário levantam spray de água da chuva. De tanto deslizar, de lá para cá, e vice-versa, já não sei o que deixo para trás. Tampouco o que vou encontrar.

quarta-feira, 9 de março de 2011

#microconto

Ele viu, nas Cinzas, a denúncia de sua confusão. Errou o feriado. Era Carnaval, mas ele viveu quatro longas sextas-feiras santas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Sem Título #3

Trabalho numa grande loja de eletrodomésticos. Então, sabe como é, né, sou atendente, tenho que ficar o dia todo conversando com as pessoas, sendo agradável e tal. E sempre é muito difícil. Tem gente demais no mundo! E pior, gente pobre! Caraca, como tem gente pobre comprando tv, dvd, celular, essas coisas. Essa facilidade que a loja dá, divide em muitas vezes, meses e meses pagando uma miséria. Aí, chove pobre interessado.
O pior é que a maioria só vem, entra, fica olhando, perguntando, te aluga por meia hora e vai embora. E não compra, me desculpa a palavra, porra nenhuma! Todo dia tem uns dez desses. Sem contar que eles vêm, com aquelas roupinhas de feirante, aquelas conversinhas sem graças, sem falar nos que já entram comendo! Odeio comprador que vem comendo porcarias na minha frente, ali é um ambiente de negociação, custa ser ao menos um pouquinho formal?
Aí, não bastasse fazer isso por nove horas pra ganhar uma mixaria, ainda tem a volta pra casa. Horário de pico, ponto de ônibus lotado. Quando o coletivo aparece, é como se soltasse notas de 100 reais, o povo apronta uma correria, parece que é a vida deles que está em jogo. Aí você entra, fica apertado, em pé, e pra quê? Agüentar mais conversa de pobre, ou então pobre escutando aquelas músicas horrorosas no celular, ou, mesmo que quieto, pobre espalhando aqueles perfumes de quinta. É brincadeira eu ter que passar por isso, viu. Fico ali, com meu fone de ouvido, fingindo que morri, é um tempo que demora tanto a passar que às vezes parece mesmo que eu morri e estou no inferno.
Mas eu quero sair dessa vida. Não dá. Mandei meu currículo para umas lojas aí, essas de shopping, sabe, coisa mais chique. Trabalhar em lugar com ar condicionado, cliente selecionado, eu mereço. Né, Deus, por favor...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Canto do deslugar

Procuro qualquer lugar
Que tenha algo a ser descoberto
Um baú de risadas honestas
Ou amuletos para uma vida boa
Pode mesmo ser um objeto placebo
Só para, em sua busca, eu agridocicar
Esses dias da objetividade com aroma de bílis.

Todos os meus amigos estão velhos
Já não suportam a música alta
Nem procuram as possibilidades abertas
Que a noite resiste em insinuar
São almas batendo ponto
Na esquina designada por outros.

Adoraria que não buscassem nas minhas letras
Vestígios dos versos da moda
Ou de MPB revisitada
Rogo louvores aos malditos
Escarro na cara deles para tentar ser aceito
Sou muito anos noventa
Para essa geração Y.