A moça,
toda empolgada e com voz estridente, o repreendia:
__ Você
tinha que ter ido, a festa foi ótima, ótima. Perdeu. Era uma fantasia melhor do
que a outra. Demais. Sem falar a nossa turma, o pessoal estava muito engraçado
com suas fantasias. O Agenor foi...
__ Não. Eu
não vou a festas a fantasias.
__ Sério?
__ Sério.
Eu não me fantasio de ninguém, de nada. As pessoas é que se fantasiam de mim.
Se elas tiverem gosto apurado, é claro.
O “tic” do relógio nunca o
incomodara tanto. Os ponteiros girando, livre e tranquilamente, também não. Ele
olhava compulsivamente para o relógio. E, a cada conferida, seu temor se
concretizava: naquele cabalístico 21/12/2012, o mundo não iria acabar. Malditos
maias.
Enfim, era preciso encarar os
fatos. Partir para o plano B. Deixou o relógio em casa e foi jogar na Mega Sena
da Virada.
Esfrego os olhos, tiro
remelas - o problema pode estar neles. Não é.
Talvez seja a sujeira no
vidro da minha janela. Bem que poderia ser. Mas também não é.
Não sou eu, é você. A fumaça
é o sintoma de cidade grande, mesmo. De toda sorte de porcarias tóxicas que vão
nos matar de câncer.
Na paisagem sonora, ruídos.
Marretadas, jatos de tinta, madeira serrada... Por todos os lados erguem-se
prédios, monumentos da modernidade. Imensos caixotes de tijolos para empilhar
gente. Uma bela invenção, sobretudo para terroristas.
São pouco mais de 8h e Belo
Horizonte já tem um bafo de Saara. Tenho pena dos otimistas, deve ser difícil
ser um deles no verão.
Sansão cospe nas mãos e as
passa copiosamente na careca. Quer, desesperadamente, amenizar o ressecamento
da parte de seu corpo que ostentara a fonte de sua força. Mas que, agora,
encara o sol, nua.
Resta-lhe
aguardar que seus documentos sejam aprovados na previdência social. Para, quem
sabe, poder comprar um hidratante.
Depois de uma espera de sete
anos, os fãs de Fiona Apple receberam em 2012, enfim, o sucessor de Extraordinary Machine. E o novo álbum já se impõe no título, um poema escrito
pela cantora/ compositora: The
Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve
You More Than Ropes Will Ever Do.
Mas eu pergunto: por que esperar por Fiona? A indústria musical despeja
pencas de cantoras com vozes singulares e influências de jazz e rock
alternativo. Eu poderia enumerar umas cinco delas se quisesse polemizar. Surgem
com uma aura cult e, contraditoriamente, tornam-se populares. Para
depois sumir.
Nos anos 1990, quando surgiu com Tidal (1996), Fiona Apple podia
ser compreendida como um caso desses. Era claramente um achado musical. Com
apenas 19 anos, ela lançava um álbum elogiado e repleto de músicas marcantes.
“Sleep to Dream” e “Criminal” mostravam uma cantora com personalidade e uma
admirável voz contralto. Foi hit, álbum platinado e vencedor de Grammy.
Em When the Pawl... (1999) o sucesso não foi o mesmo, mas Fiona
manteve a qualidade. E nos anos seguintes, ela sairia dos holofotes,
mostrando-se um caso sincero de inadaptação ao mainstream. Pois existe o
glamour de “não se adaptar à fama”. No caso da cantora, porém, o
incômodo com a exposição midiática é real.
The Idler Wheel... é, provavelmente, o melhor álbum de Fiona
Apple, ainda que seja uma afirmação um tanto pessoal. É um cd homogêneo, as
canções, apesar de compostas ao longo do hiato de sete anos, são bastante
coerentes entre si. Ele é mais cru do que os anteriores, sem arranjos
orquestrais ou batidas dançantes, por exemplo. De um modo geral, as músicas são
construídas na base voz + piano + percussão.
Fiona Apple traduz em música seu universo, que é bastante particular em
sua tempestuosidade. Nele, a doçura e a beleza não excluem tormentos, aflições
e desencanto. É o caso da faixa de abertura e primeiro single, “Every
Single Night”. A canção varia de um início sutil para um
refrão potente, onde a cantora declara que “every single night is a fight with
my brain”. Sobram asas brancas de borboletas em chamas no cérebro e ideias
escorrendo na coluna da moça. E o cd começa muito bem.
“Daredevil”, em seguida, confirma que escutaremos a voz de Fiona em
carne viva em The Idler Wheel... . “Valentine” seria uma balada, mas
baladas não combinam com a cantora e o refrão deixa a música realmente
interessante.
Mais à frente, com “Left
Alone”, Apple é feroz e brada “how can I ask anyone to love me/ when all I do
is beg to be left alone”. Para muitos,
é incômodo ver a atual magreza da cantora, com olheiras que engolem seus olhos
azuis. Não deveria. A vida, convenhamos, não é lá muito fácil de digerir. É
milagre que todos nós não tenhamos distúrbios alimentares.
É um álbum curto. São 10 músicas e 42 minutos. Pouco, em números, para
tanto tempo de espera. Porém, The Idler Wheel... é intenso e não há
canção nele que se destaque negativamente. Pelo contrário, é preciso ressaltar
a beleza de “Werewolf” e “Anything We Want”.
Assim, fica a resposta para a pergunta lá no início. Espera-se pelos
retornos de Fiona Apple porque eles não decepcionam. Seu ritmo lento de
produção não esconde uma artista em decadência. Pelo contrário, parece ser uma
condição necessária para que ela produza álbuns sinceros. E que, ao que tudo
indica, valem mais do que quase tudo que foi feito na música pop de 1996 para
cá.
*Em tempo: foram anunciados três shows da Fiona Apple no Brasil. A novaiorquina
passará por Porto Alegre (27/11), São Paulo (29/11) e Rio de Janeiro (30/11).
Quando, em agosto de 2007, a
vocalista Anneke van Giersbergen deixou o The Gathering, o chão se abriu para
os raros fãs da banda. Pois não era uma simples troca de integrante. A entrada
de Anneke marcou a mudança no som do grupo, que progressivamente foi
abandonando estilos mais pesados (doom/ gothic metal) para sonoridades mais
atmosféricas, que a banda denominou trip
rock (alusão ao trip hop de
grupos como o Portishead).
Mais do que esse marco
simbólico, Anneke se tornou a “cara” do The Gathering. Com sua bela voz e o assombroso
carisma, a cantora não poderia ocupar lugar diferente. Foi tão protagonista na
banda que resolveu dar seu vôo solo. Ser seu próprio rosto.
E agora, cinco anos depois,
podemos ver que o rompimento, embora dolorido aos entusiastas do grupo, foi
honesto. Everything is changing,
terceiro álbum solo de Anneke (os dois anteriores usaram o nome Agua de Anique
como transição) indica que a cantora está convicta em flertar com o pop. Vide o
clipe de "Take me Home".
Já o The Gathering lançou
nesse mês seu segundo trabalho pós-Anneke, Disclosure.
Esse álbum teve maior participação de Silje Wergeland (ex-Octavia Sperati), norueguesa
que assumiu os vocais. O anterior, West
Pole (2009), ela encontrou praticamente pronto. E Disclosure é um atestado de que o The Gathering segue fiel ao seu trip rock, sem soar repetitivo no
caminho que escolheram.
No álbum novo, os holandeses liderados
pelos irmãos Hans e René Rutten incorporam mais características do rock
progressivo, outro rótulo que costuma ser utilizado para definir sua
sonoridade. Não o progressivo de intermináveis solos virtuoses, é bem verdade, mas
na exploração da capacidade sensorial da música.
“Paper Waves”, apresentada ao
público brasileiro no show da banda em julho de 2011, abre o disco. É uma faixa
eficaz como abertura do disco, mostra que o que virá a seguir é promissor. Os
saudosistas podem até sentir falta de Anneke, mas Silje cumpre bem a árdua
tarefa de substituí-la. Sobretudo por soar bem e em seu próprio estilo.
“Meltdown”, em seguida, é a
música mais ousada do cd. Além do vocal masculino (estreia do tecladista Frank
Boeijen na função), algo que não ocorria desde “A Life All Mine”, de Souvenirs (2003), a música inicia com
uma dinâmica bastante moderna. Porém, pela metade, ela toma rumo mais
introspectivo. De fato, Disclosure é
um álbum de músicas longas e com variações internas. “Heroes For Ghosts”,
quarta faixa, que teve um clipe lançado no ano passado, dura mais de dez
minutos. Épica, mostra uma banda entrosada.
“Paralyzed”, terceira música,
é a que mais se aproxima de uma balada no disco e, de fato, tem potencial para single. Conta com uma bela melodia vocal
e um acompanhamento bem digno.
Disclosure tem
também uma faixa dividida, “Gemini I” e “Gemini II”, essa encerrando o cd. “Missing
Seasons” talvez seja a canção que menos chama a atenção no cd. “I Can See Four
Miles” reforça que, mais do que faixas grandes, temos músicas grandiosas no
décimo álbum de inéditas do The Gathering.
O supracitado show dos
holandeses em São Paulo, no ano passado, mostrou que o impacto gerado pela
saída da ex-vocalista afetou o número de seguidores do grupo. O público que
compareceu naquele domingo foi consideravelmente menor que aquele do outro show
da banda no Brasil, em 2006, ainda com Anneke – o tamanho do local onde os eventos
ocorreram também transmite essa realidade, do Via Funchal para o Hangar 110.
Disclosure nos
faz concluir que, junto da separação entre os integrantes, também ocorreu uma entre
seus seguidores: foram-se os(as) tietes de Anneke, ficando os verdadeiros fãs
da banda. Pois musicalmente é inegável que o The Gathering mantém sua
identidade. Com mudanças, claro, pois trata-se de uma característica de sua
trajetória. Mas eles seguem explorando as possibilidades do trip rock. Seus fãs da banda podem ser
poucos, todavia são convictos de serem uns privilegiados.