Por mundo leia-se a bola do meu sorvete. Dói mesmo assim.
Era passas ao rum.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Sentimentos da noite
(19:03) Poxa pessoal eu to tirste hj L Dia peeeeeeeessimoooo!!!!!!!!!!1!
(19: 05) * tristre
(19:08) Tah foda nem
pra escrever to prestando #acabalogodia
(19:22) Sou tao
retardado, to rindo sozinho de não conseguir escrever ~triste~ huehuehue
#naodesistonunca
terça-feira, 4 de novembro de 2014
País dividido
João foi ao estádio ver seu
time do coração jogar. Lá, ele achou a festa bonita, tanta gente
vestindo roupas com as mesmas cores que as dele, cantando e declarando amor ao
União Cascalhense. Gostou do que viu. E mais: se empolgou. Inclusive porque,
mal o juiz autorizou o início da partida, o centroavante de seu time puxou a
bola para um lado, deixou a marcação do outro e sapecou um belo chute. 1 a 0.
Isso, tinha encontrado um
grupo ao qual pertencia plenamente. Certo? Não. João olhou melhor e viu que o
cabeludo levava, na mochila, um adesivo do candidato presidencial que ele
abominava. Não, não podia estar no mesmo grupo que aquele cidadão, eles tinham
visões de mundo muito diferentes. João se negava a ser igual a quem não
percebia que Lucrécio era a melhor opção para o país. Fez, então, uma nova
definição para o seu grupo de pertencimento: torcedores do União Cascalhense,
roqueiros e que votavam em Lucrécio para presidente do Brasil.
Mas o jogo seguia e João foi
prestar atenção. Ele viu, com apreensão, o adversário empatar a partida.
Lamentou quando um gol contra fez a virada. Irritou-se com o terceiro gol dos
visitantes. E quando o quarto tento foi anotado, ele bufou – afinal, é contra a
Alemanha que estamos jogando?
Na volta para casa,
envergonhado com a derrota acachapante, João refletiu sobre o grupo de iguais
que havia imaginado. E pediu para sair – já não estava assim tão convicto como
torcedor do União Cascalhense.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Luto, Brazil
Mal deu conta de si naquela
manhã e a dor já latejava em seu peito. Um aperto tão grande que, se fosse
físico, seria mais fácil de lidar. Ligaria para um médico, tomaria algum
remédio e estaria curada. Mas não, aquela dor era coisa que transcendia o
corpo. Apertava seu ser.
Viu, ainda na cama, a
maquiagem não retirada da noite anterior borrada no travesseiro, sujando os lençóis.
Cortesia das lágrimas, cascatas da noite de agonia. Então, Deborah pensou em
seus olhos, que deveriam estar inchados como nunca antes.
Deborah olhou para as unhas,
pintadas de azul e amarelo. O ódio voltou e ela pensou em pintá-las, agora, com
esmalte negro. Estava de luto. Por isso resolveu fazer um vídeo, anunciar sua
frustração com o resultado das eleições. E, tal como no término com o
ex-namorado ou quando o seu cachorrinho morreu, ela escolheu lidar com a
situação da forma mais madura da qual era capaz: declarar que se mudaria para
Miami.
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Selfieneral
A morte do ex-governador de
Pernambuco, o candidato à presidência Eduardo Campos, comoveu milhões de brasileiros.
Além de adorado por grande parte da população de seu estado, o neto de Miguel
Arraes era a esperança de alguns eleitores, o nome da vez para a tal “renovação
na política” (não sei se filho/ neto de peixe é, além de peixinho, renovação. Mas não vem ao caso). E, independente de quem
seja, a interrupção abrupta de uma vida é sempre merecedora de pesar.
Em contrapartida, causou
estranhamento a quantidade de selfies
(as fotos de si mesmo) tiradas durante o velório de Campos. Emblemática foi a
imagem de uma mulher, jovem, erguendo o celular, tombando a cabeça para o lado
e mobilizando a musculatura facial em um sorriso. Tudo, claro, com o caixão ao
fundo. Virou même.
O fenômeno das selfies tem uma justificativa
tecnológica: com celulares e tablets
é possível ao modelo ser também o fotógrafo, visualizando o enquadramento na
tela, arrumando o beicinho e, olha o passarinho!, tirar a foto. No passado,
sobretudo antes da era digital, apertava-se o botão e só quando era feita a
revelação do filme saberíamos se a foto ficou boa. Isso se não queimava. Aí, já
era, o momento histórico ficaria somente na memória.
Há, porém, mais por trás das selfies do que só tecnologia. É a reinvenção
do mito de Narciso. Na mitologia grega, o jovem se apaixonou pela própria imagem
refletida na água de uma fonte e morreu se contemplando. No século XXI, ele
tiraria uma foto no celular e já compartilharia no Instagram, com alguns filtros para ficar mais bonito/ estiloso, e
ficaria se admirando em casa, enquanto os amigos lhe dão “like”. (E eu já tratei do tema aqui )
A cultura da selfie diz mais ou menos assim: “é
preciso registrar tudo. Mas não só registrar, ME registrar, também. E quem
melhor para ME registrar do que EU mesmo?” É muito autoamor, muita autodevoção.
Narciso curtiu.
Com tanto amor próprio que as
pessoas acabam perdendo a noção do que está acontecendo ao redor. Esquecem que
há um mundo bem mais complexo do que a timeline
do Facebook. Pouco importa se tem
sete mortos e suas famílias ou se um furacão devastou Nova York (não foi selfie, mas a Nana Gouveia também já
aprontou com o bom senso, lembram?). No mundo da selfie o outro é
importante, sim, na medida em que gera “likes”,
compartilhamentos ou comentários como “lindos! amuuu” e por aí vai.
Ou seja, com tanta tecnologia
promovendo a comunicação, a adoração própria faz o padrão geral ser o monólogo.
E aí, não importa se é momento de tristeza, o importante é o fetiche da imagem
de si mesmo. É preciso, mais do que experimentar o mundo, registrar-se
experimentando o mundo.
Definitivamente, o “Vórtice de
Perspectiva Total” como instrumento de tortura nunca fez tanto sentido. Descrito
no livro “O restaurante no fim do universo”, de Douglas Adams, o "Vórtice" mostra a
quem está em seu interior sua importância na perspectiva do universo. Ou seja,
um pontinho invisível sobre outro pontinho mínimo.
Mas, e aí, á fez uma selfie hoje e desejou bom dia aos
amigux?
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Conselheira Espiritual se defende de acusação
Se possível, favor ver o vídeo antes de ler: http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/mgtv-1edicao/t/edicoes/v/casal-diz-ter-perdido-moradia-em-golpe-de-suposta-benzedeira-em-alterosa-no-sul-de-mg/3471103/
Prezados
policiais, prezada Justiça Brasileira,
[Com cópia
para as entidades superiores]
Venho,
por meio desta, esclarecer as acusações feitas contra a minha pessoa. Sou a “suposta
conselheira espiritual” que, procurada por um casal para ajudá-los a se livrar
de problemas pessoais, teria dado um golpe e roubado R$ 65 mil reais. Não
divulgarei meu nome pelo motivo de estar na clandestinidade atualmente.
Deste
modo, segue o primeiro esclarecimento: não sou “suposta conselheira espiritual”
coisíssima nenhuma. Sou conselheira espiritual, a popular “benzedeira”,
profissão reconhecida nas instâncias do Além há mais de um século e da qual eu
muito me orgulho. São mais de 30 anos de bons serviços prestados. 30
anos e uma reputação a ser preservada. Posso, num estalar de dedos, mobilizar
uma porção de espíritos para testemunhar a meu favor. Inclusive este que
entrega a carta aos senhores.
A
respeito do golpe de estelionato que o casal equivocadamente me acusa, segue
minha explicação. A família passava por um momento de tensão, com brigas
recorrentes, problemas econômicos e uma extrema dificuldade de diálogo. Um
quadro típico da influência de espíritos negativos, os encostos, como alguns
nomeiam. Entidades de muita maldade, que quando querem atazanar alguém, são insistentes. Também me chamou a atenção um aspecto do relato da esposa. Segundo ela, dois copos se quebraram na casa em menos de uma semana. Vejam bem, estimados senhores, esses
espíritos são cruéis, quando eles querem se manifestar, o quê que cai? Copos de
vidro ou pratos de louça. Coisas que machucam. Nunca é um copo descartável,
porque eles querem ferir. São seres ardilosos. Francamente, não sei como há
quem não acredite nesse tipo de maldição.
Pois é
isso. A casa estava amaldiçoada. Fiz meus rituais, sempre orientada pelos 7 Espíritos de Luz. estimados conselheiros que me leem em anexo. A
presença da entidade negativa ali, infelizmente, era muito forte. Aconselhei, então, que a
família vendesse a casa, numa tentativa de livrá-los do mal. Era um caminho natural. Mas eles
continuaram brigando, muito. Solicitei o dinheiro, para purificá-lo, pois enquanto eles tivessem
a quantia, suas vidas estariam atreladas à maldição. Infelizmente, não foi
possível benzer o dinheiro de forma eficaz. Restou-me, assim, um método não muito bem quisto no plano
terreno, mas super recomendado no Além: o “Procedimento de Pulverização do
Dinheiro Amaldiçoado por Ser Abençoado”, no caso, eu. Pergunte, por gentileza,
ao espírito que lhe entregou a carta se não é um método respeitado no Além.
Ciente
da impopularidade deste procedimento entre os vivos, tão materialistas, e
prevendo injustas retaliações (também sou uma vidente de qualidade, modéstia à
parte), fugi. Mas espero que o mal entendido seja resolvido e eu possa voltar à
minha vida comum, sem nenhum prejuízo. Inclusive porque o “Procedimento de
Pulverização do Dinheiro Amaldiçoado por Ser Abençoado”, no caso, gastar os R$
65 mil, já foi finalizado. Nada fiz que não fosse pelo bem da família.
Grata
pela atenção, aguardo retorno.
Conselheira
Espiritual G.
P.S.:
A carta acima expressa o desejo dos 7
Anjos de Luz.
P.S. 2:
Também expressa o desejo do espírito que porta esta carta. E, aviso fraternal,
ele não gosta de ser contrariado.
terça-feira, 20 de maio de 2014
DEPUTADO ENCAMINHA POLÊMICO PROJETO DE LEI SOBRE COMPARTILHAMENTOS NA INTERNET
Brasília, 20 de maio de 2014 – O deputado federal Arlindo Anderson, do PZN,
encaminhou um projeto de lei à presidência da Câmara que promete causar
polêmica entre políticos e internautas. O documento propõe que o governo solicite
ao Facebook a cobrança de uma taxa de
R$0,10 de seus usuários por cada compartilhamento que eles façam na rede
social.
Perguntado
sobre se o projeto de lei é motivado pela crescente popularidade do perfil TV
Revolta, o deputado negou. “Não é o alvo. Claro, incomoda ver as pessoas
postando as mensagens dessa TV Revolta, com aquele humor deplorável,
pseudopolitizado. Sem falar no tom reacionário, quase fascista do perfil. Mas
não é o único alvo. Os usuários da rede social compartilham boatos sem checar
as fontes. Esse tipo de atitude já custou vidas. E vou além. Acho que, se a
pessoa quer compartilhar fotos de filhotes com trechos de músicas do Legião
Urbana, nós não vamos impedi-la. A taxa a ser cobrada é simbólica, pensando
naquele usuário que tem sua liberdade invadida ao se deparar, em plena manhã,
com tamanha cafonice”.
Se
o projeto de lei for aprovado, o deputado já pensa em novas medidas para
expandi-lo. “Não entrou no texto, mas pretendo, futuramente, propor a cobrança
de R$0,50 por fotos compartilhadas, como as chamadas selfies ou registros de viagens de férias. Não é censura, repito.
Mas é comprovado que esse tipo de fotografia pode causar depressão naquele
usuário, diante da conclamada felicidade alheia, se sente inferior”, finalizou
ele.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Notas sobre um linchamento
Zacarias retornou do mercado e,
enquanto se preparava para abrir a alfaiataria, foi abordado por um atônito
Apolônio:
- Zacarias, olha isso – e entregou
ao amigo uma folha em que se lia “Jerusalém Alerta” e na qual constava um
desenho de um rosto masculino.
- “Jerusalém Alerta, suposto
retrato do homem que se declara Rei dos Judeus, filho de Deus”... Peraí, a
gente não viu esse cara ontem?
- É isso que eu queria te
perguntar. Não é aquele cabra que passou pela gente ontem?
- Tô achando que é... E o
filho da mãe sonega impostos, você leu isso?
- Li. A gente se matando de
trabalhar e esse marginal por aí, caluniando a nossa fé e não pagando impostos.
***
Na casa de Eliseu, o velho,
observado pela esposa e os três filhos, analisou o panfleto.
- Sei quem é. Trabalha em uma
carpintaria, se não me engano. Fica três ruas pra lá, há uns seis quarteirões
daqui.
- Rei dos judeus, esse palhaço
precisa ser enquadrado – disse Zacarias, apanhando algumas pedras no chão. Vem
com a gente, Eliseu?
***
Durante o caminho eles se
tornaram uma pequena multidão. De forma que, quando chegaram na carpintaria e
avistaram o suspeito, imediatamente uma chuva de pedras veio em sua direção. Os
outros empregados, em pânico, esconderam-se. Mas o alvo da multidão era outro.
Atordoado com as pedradas, o sangue do corte em sua testa escorrendo em seus olhos, o
suspeito foi logo dominado, amarrado em uma vara e levado para a rua.
Nem teve tempo de saber o que
se passava. Enquanto era espancado, escutava frases como “cadê seu Deus-Pai
agora, seu merda?” e “vou te coroar de porrada, rei dos judeus”. Um linchamento
impiedoso.
Enquanto estendiam o corpo na
rua, Carmelo, que vinha do centro de Jerusalém, trouxe a noticia de que um tal
de Jesus, acusado de caluniar a religião judaica e de sonegar impostos, acabara
de ser preso por guardas romanos.
- Vixe, então não era esse.
- Parece que não – respondeu Carmelo.
Agora, vamos todos para a praça central! Dizem que Pilatos vai fazer uma votação
para decidir se crucificam o meliante ou não.
- Ah, o safado não pode se
safar.
E o coro de “crucifiquem-no” já pode
ser ouvido dali.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Análise Crítica
- Sabe, filho, você até que escreve bem, isso dá para
perceber. E é criativo. Mas as suas histórias... elas não chegam a lugar algum!
De verdade. Aí fica chato. Você precisa escrever histórias mais bonitas, que passem
alguma mensagem, entende?
-
Ah, mãe, mas eu me inspiro na vida. As coisas não vão, necessariamente, para
algum lugar.
...
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Selfie
Esticou o braço, apontando o celular para o seu rosto.
Olhou para o lado. Apertou a tela. Click.
Ergueu o celular, fez um biquinho, de leve. Apertou a tela.
Click.
Mudou o celular de mão, balançou os cabelos e os jogou no
rosto. Pôs a língua para fora, no canto da boca. Click.
Pôs óculos escuros no rosto. Click. Mordeu os lábios. Click.
Fez carinha de “to chupando limão”. Click.
Pôs um pirulito na boca. E click.
Visualizou as fotos na tela. Se curtiu. Aí, postou tudo no feicibuque.
E esperou os outros curtirem.
Mas pouca gente se manifestou.
Ficou triste. Procurou uma frase de efeito para ilustrar
sua tristeza. Achou uma da Clarice Lispector.
Assinar:
Postagens (Atom)