sexta-feira, 16 de março de 2012

#microconto5

Pedro confiava em Sofia. Expunha-lhe suas alegrias, temores e aflições. Ela recebia tudo com ternos sorrisos e conselhos atenciosos.

Ele quase a amava. Quase. Pois a confiança custava R$200 a hora.

quinta-feira, 1 de março de 2012

29 de Fevereiro

A cada ano, a Terra demora 365 dias para circundar o Sol. Na verdade, entretanto, ela nunca é eficiente a ponto de cumprir a meta. Sobram seis horinhas bobas nessa brincadeira toda. No limbo, elas vão sendo acumuladas e, no quarto ano, formam um dia completo. É o fatídico dia 29 de fevereiro, especial por sua raridade.

Moisés nunca tinha pensado nisso com seriedade. Até aquele ano. Ficou deslumbrado com a ideia de um dia distinto a ponto de só ocorrer naquela periodicidade. Um dia extra, atípico, não poderia ser desperdiçado.

Por isso, não foi trabalhar. Dedicaria o dia raro a si mesmo. Ficaria em casa, feliz.

Mas não foi o suficiente. Ele não queria ser egoísta e gastar o dia extra apenas consigo mesmo. Era preciso fazer algo bom, mas não só para ele, para todos. Para o mundo. Só ficaria satisfeito se fizesse algo grandioso.

E ele fez. No dia 29 de fevereiro de 2012, Moisés matou os seus vizinhos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A foliã

            O carnaval chegou e Ângela estava feliz. Naquela sexta-feira, no fim da tarde, ela voltou para casa sentindo o ar diferente. O crepúsculo encontrava-se tematicamente festivo, com as cores de uma glamorosa fantasia. Os jovens circulavam entusiasmados em suas conversas, a cidade toda preparava a grande festa.
            Mas Ângela queria mais. Muito mais. Se pudesse, jogaria confete naqueles que não davam importância ao carnaval. Levaria caixas de som consigo para o samba chegar em todos os lugares. Vestiria os obesos de Reis Momos. Distribuiria fantasias. Era carnaval, ora!
            Passou em um supermercado e comprou algumas bebidas. Ela gostava de beber e dizia que um dos motivos de não ter se casado é que os homens tinham medo de mulheres como ela, com personalidade. E enquanto a animação começava no centro, Ângela e sua sacola de supermercado iam em sentido contrário, para casa.
Os desfiles das escolas de samba ainda não haviam começado, mas ela já estaria posicionada. Diante da TV, com o controle nas mãos. São Paulo, Rio, axé na Bahia, frevo no Recife. Há anos sua folia não tinha fronteiras geográficas.
E ela viraria a madrugada, pois era uma boa foliã. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Taiti (segunda versão)

Procurando encontrar-se espiritualmente, ele mudou para o Taiti. Foi em busca da uma simples e pura existência. Lá, ele rezou, dançou com os nativos e nadou sob o luar de Papeete.

Mas após duzentos dias, ele voltou. Não havia problema existencial que se fosse maior do que as saudades que sentiu.

Era apaixonado por feijoada.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Pinheirinho

A criança acordou com o estrondo das bombas. Não sabia sobre reintegração de posse ou de especulação financeira. Tampouco conhecia o nome do governador. Mas logo entendeu que não tinha mais uma casa. E que, naquela segunda-feira, não veria “Os pinguins de Madagascar”. 

Postado originalmente http://manufatura.blogspot.com , nas minhas atualizações lá, sempre nos dias 26.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sem título #4

Nas sextas-feiras, o marido chegava, tarde da noite, exalando álcool barato por todos os seus poros. E Glória tinha que ficar lá, passiva, em suas investidas sexuais. Era mais seguro. Até porque ele dormiria durante o ato, mesmo.

Olhando para os rabiscos que as infiltrações deixavam em seu teto, a esposa fazia as contas do mês. Janeiro era impiedoso. A farra fresca na memória do fim do ano era trocada pelo cinto apertado com os impostos e gastos escolares.

O marido já roncava.

Glória havia lido que as mulheres têm maior facilidade em fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Fazia sentido.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Bolsonarianas

Higienização
A sociedade gosta
Pé na bunda dos viciados
Spray de pimenta e bala de borracha.

O país anda perdido
Uma situação deplorável
Os homossexuais se beijam nas ruas
Que cena abominável!

Não que eu tenha algo contra
Sem essa de homofobia!
Bicha é engraçado lá na novela
Aqui eu prezo pela família.

Onde andam os bons costumes?
Quanta avacalhação
Direitos Humanos, sim.
Pra gay, puta e bandido, não!

Eu pago meus impostos
Sou o mais honesto da cidade
Rezo missa aos domingos
Deus, Família e Propriedade.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Discografia Comentada: Radiohead – The King of Limbs (2011)

“Música para ouvir música para ouvir música para ouvir”, já dizia Arnaldo Antunes. É verdade, música é para ouvir. Mas, uma vez apreendida por nossos órgãos de audição, inclusive aqueles ossinhos de nomes engraçados, a música repercute nas outras formas sensoriais. Assim é com outras formas de expressão. Esse texto, por exemplo, esboça ser um caminho racional que o raro leitor pode seguir, compartilhar e curtir. Ou não.
            A fórmula das canções é bem racional em sua estratégia de tocar o ouvinte. Uma introdução que pretende chamar a atenção, trechos geralmente com versos cantados que trazem a expectativa do refrão, que é quando há o julgamento: música boa ou música ruim? Você se identifica com o ritmo, com o que é cantado, com a intensidade dos instrumentos. Ou não.
            O Radiohead trabalhou com essa fórmula com grande sucesso até Ok, Computer (1997) que é, incontestavelmente, seu maior clássico. Nele, o grupo soou pop sem ser vulgar. Melancólico, é verdade, mas esta é uma forma de não ser superficial e deve ser respeitada. Naquele álbum, estava “Paranoid Android”, uma das canções mais admiráveis que o mundo já viu.
            Depois o grupo nunca mais seguiu tão à risca a tal fórmula identificada acima. É verdade, não rompeu amplamente com ela, o que seria afrontar um formato já centenário. O Radiohead passou a fazer música que, mais do que ouvida, necessita ser sentida. Pelo corpo, mesmo. Aí, foi fundamental a apropriação da música eletrônica, que convivem com elementos do rock alternativo desde o Kid A, de 2000.
            The King of Limbs (2011) não é o melhor trabalho do grupo. Como desvantagem, o fato de ser posterior ao ótimo In Rainbows (2007). Mesmo assim, o cd do ano passado não deve ser ignorado. Escutado de ponta a ponta (ele tem menos de 40 minutos), percebe-se que o Radiohead constrói uma forte atmosfera ali. Julgar canções isoladamente não é o melhor caminho, pois há algo de complementar entre elas. Isso fica muito claro nas cinco primeiras faixas. Depois, a qualidade cai um pouco, com canções arrastadas.
Dos anos 2000 em diante, o Radiohead faz música pulsante. “Lotus Flower” é  exemplo disso, com seu clipe e a célebre dança de Thom Yorke. Ele parece estar em transe. O ouvinte de The King of Limbs fica na beira disso. Mesmo não sendo o melhor, o álbum é um indício de que a banda seguirá desenvolvendo o encontro entre rock alternativo, jazz e música eletrônica. Esta última que, para nosso alívio, é bem mais do que fazem os DJs fulano de tal dessas raves da vida.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Discografia [e Natal] Comentada [os]: Scott Weiland – “Most Wonderful Time of the Year” (2011)

            Natal, a época mais maravilhosa do ano? Há controvérsias. Afinal, não são poucos os que mobilizam seus discursos de cunho marxista para questionar os aspectos maléficos do consumismo, tão associado ao rito natalino. Ou os cristãos que se revoltam com a perversão do sentido original da data. Pois sempre haverá alguém querendo jogar água no nosso vinho Canção, prezado leitor. Mas se a pessoa quiser se embriagar na cafonice dessa época do ano, qual o problema?
As luzes de Natal, em minha opinião, representam a necessidade que temos de sonhar. As cidades, com suas fachadas soturnas, de trevas que intimidam, transformam-se numa Las Vegas de motivos natalinos. O décimo-terceiro salário traz a magia. Não importa quão miserável você seja, em dezembro a situação parece ser de opulência. É sonho, porque afinal, em algum momento a gente acorda. No caso, com data marcada: janeiro e seus impostos.
Maravilhosa ou não, essa época tem os seus “milagres”. Tipo alguém realmente acreditar que juntar a família numa mesa possa ser uma boa idéia. Ou Scott Weiland abrir seu sorriso mais brilhante, vestir-se de bom moço e cantar canções natalinas. Pois é, em 2011, o vocalista do Stone Temple Pilots lançou o cd Most Wonderful Time of the Year, com canções natalinas. Pois o Natal nos EUA tem toda uma tradição musical, corais cantam de casa em casa um repertório típico. O que não passa impune à indústria fonográfica, repleta de produtos voltados para essa época, o que às vezes proporciona encontros inusitados.
Scott Weiland tem um histórico bastante problemático, com abuso de drogas lícitas e ilícitas, e conseqüentes prisões. Depois dos dois primeiros álbuns, nunca mais o STP foi regular em sua atividade. O que torna esse cd algo muito curioso. É a magia da época: por que Scott não pode regenerar, nem que seja só nesse período?
De um modo geral, esse é o grande atrativo de Most Wonderful Time of the Year. Para quem gosta de músicas do Natal, é claro, também é um bom motivo para ouvi-lo. Comportado, Weiland não perverte a maior parte das músicas. Podemos considerar exceções a roupagem pop kitsch de “Silent Night” (ou “Noite Feliz”) e “Happy Christmas and Many More”, e reggae em “O Holy Night”. Também é interessante ouvir o vocalista em registros mais graves, como no single “Winter Wonderland”, algo que ele abandonou ao longo dos anos no STP e Velvet Revolver.
Mas, justiça seja feita, há tempos Scott Weiland não vive só de drogas e rock’n roll. Por exemplo, a música “A song for sleeping”, do quinto álbum do STP, é uma das mais belas feitas de pai para filho. Sua carreira solo é bem variada e não soa como os trabalhos de suas bandas.
Mas, enfim, Most Wonderful Time of the Year é um cd natalino, limitado já em seu propósito. Se o leitor precisar de trilha sonora para o Natal de 2012, Scott Weiland é preferível à figuras como Simone, ou Michael Bublé.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Discografia Comentada: Incubus – “If not now, when?” (2011)

            Uma pancada nos ouvidos. Só que não. Assim eu definiria o mais recente álbum do Incubus, If not now, when?. Porque ele me remete a uma regra que formulei, há um bocado de tempo, sobre a evolução das bandas: chegando a idade, os roqueiros “tiram o pé” e ficam comportados. Claro, meu grande parâmetro era o Metallica, que “playbolizou” depois do Black Album. Rebeldia parece não combinar com cabelos brancos.
            Claro, nem sempre é por aí. Mas com o Incubus o caminho tem sido este. A banda começou fazendo um rock mais funkeado, aquela mistura que foi tendência no fim dos anos 1990. Na época, o vocalista galã Brandon Boyd usava dreads e um bigode, digamos, bem maroto. Se você não lembra, confere o clipe de “A Certain Shade of Green”. A partir do terceiro álbum de estúdio, Make Yourself (1999), a banda passou a dosar rock de arena com baladas bem dignas. Até que, no penúltimo álbum, Light Grenades (2006), a guitarra ficou menos distorcida e as melodias, mais adocicadas.
            Só que em If not now, when? o açúcar foi generoso. O álbum é composto praticamente só por baladas. São onze faixas. Então, o fã mais antigo pode estranhar. Não dá para procurar os bons momentos do passado ali, como em “Nice to know you” ou “Megalomaniac”.
            Mas façamos algumas ponderações. É verdade, é um álbum bem leve. Porém, não merece ser taxado de pop. Só coisas tipo o Nickelback merecem esse rótulo. Os músicos do Incubus são bastante competentes, as canções estão bem construídas instrumentalmente e a produção, bastante limpa. Algumas músicas poderiam se encaixar com facilidade em uma trilha sonora de seriado adolescente, tipo o single “Promises, promises”. Mesmo assim, há boas exceções, como a experimental “In the company of wolves” e a agitada “Switchblade”. E o outro single, “Adolescents”, vale ser conferido.
            Esquecidas as referências anteriores, dá para se tirar um bom proveito de If not now, when?. Afinal, há espaço em nossos mp3 e HDs externos para um álbum que soa mais adocicado. Por que não? Nessa proposta, o novo trabalho do Incubus é uma excelente opção.
Mas eu não indicaria para os diabéticos.