quinta-feira, 26 de julho de 2012

Questionário


__ Sou um artesão de palavras. Minha matéria-prima são as ideias. Escrevo textos, mas gosto de pensar no meu ofício como o labor de um alquimista. Colho sonhos, cores, sorrisos. O amor, a delicadeza humana, as lágrimas de uma donzela. O frescor das manhãs, a filosofia das crianças, o aroma do café na cozinha das avós... E os transformo em literatura. (...)

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quarta-feira, 4 de julho de 2012

27


Fazer algo grande
E morrer aos vinte e sete
Era sua meta juvenil
De vencer
Incontestavelmente.

Agora,
Com suas tantas primaveras
Ele só podia advogar pela nobreza
De viver,
Quantos anos fossem necessários,
Sendo o mais medíocre dos homens.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Insight matinal

Abriu os olhos e espiou o relógio: em cinco minutos o aparelho soaria. Seria inútil tentar dormir mais um pouco... http://www.manufatura.blogspot.com.br/2012/06/insight-matinal.html 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos Namorados


Aquele 12 de junho seria de romance para casais em todo o país. De lamentações para aqueles solteiros que escutaram o Fábio Júnior e seguem procurando a “metade da laranja”. E de trabalho intenso para os funcionários de perfumarias, floriculturas e lojas de chocolate.

Seria um Dia dos Namorados tradicional. Menos para Elize, que está na cadeia por ter esquartejado o marido no mês passado.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Jeff Buckley: 15 anos


Minha intuição sempre foi apurada em relação à música. Grande parte das bandas e artistas que compõem o meu panteão foram percebidos com rápidas amostras. Por isso, poucas decepções guardo comigo nesse tempo em que me tornei um apreciador musical, com a dedicação que tal arte merece.

Com Jeff Buckley não foi diferente. Ainda muito jovem, lá pelos treze anos, vi pela primeira vez um vídeo dessa figura, por intermédio de Terence Machado e seu Alto Falante. Na época, porém, meus ouvidos necessitavam de mais distorções, assim como os homúnculos em Full Metal Alchmist necessitam de pedra vermelha. Mesmo assim, lembro que a música, que não lembro qual era, me causou uma ótima impressão, embora não fosse o que eu buscava escutar.

Guardei o nome e a fidelidade ao programa da Rede Minas. Vi mais algumas vezes Jeff Buckley nesse canal até o Kazaa e minha internet discada me proporcionarem um maior contato com a obra desse compositor. E, até hoje, nas minhas audições já não ocasionais, sinto o mesmo espanto daquela primeira vez. Primeiramente, o mais óbvio, pela qualidade vocal. Será que conheço outros vocalistas que atinjam agudos tão certeiros, prolongados, angustiados, sem destruir o timbre de sua voz? Dificilmente. Jeff Buckley cantava com facilidade melodias incertas que vão desde o suspiro de “I love you, but I´m afraid to love you” em So Real, até gritos prolongados do refrão “Wait in fire” de Grace. Só por isso, ele já seria um inigualável acréscimo à produção musical.

Entretanto, ele acrescentou bem mais. Sua sensibilidade aliada de sua capacidade como compositor fazem com que suas músicas sejam dotadas de uma carga de alto teor emocional. Existem bons compositores que fazem música agradável. Os melhores, porém, são aqueles que colocam um algo mais que dá vida à composição. Justamente, a vida do artista. Por isso a importância da dinâmica interna de suas músicas, com dedilhados leves na guitarra e distorções convivendo em uma mesma música; ou o descontraído cover de Yard Of Blonde Girls e Everybody Here Wants You em um mesmo disco. Dinâmica. É difícil encontrar músicas melancólicas com variações. Talvez por isso eu não goste de Belle And Sebastian. Nem afins.

Por isso e muito mais, não consigo pensar em Jeff Buckley como mais um talento que tenha surgido na música pop. Isso é impensável. Ele está em uma categoria muito mais seleta, a de artistas que atingem uma profundidade muito além da do convencional. Categoria que, com o perdão dos puristas que buscariam pares na década de sessenta, ou algo do tipo, vejo amplamente desabitada.

Infelizmente, escrever sobre Jeff Buckley implica esbarrar no tema da sua morte. Evento que, penso, foi uma das maiores tragédias que a música já vivenciou. Afinal, morrer afogado, antes de concluir os acertos do seu segundo álbum foi uma saída triunfalmente romântica. Trágica, sobretudo. Com todo o peso que essa palavra possui. Nem nisso o filho de Tim Buckley é superável.

Como o fluxo do tempo é contínuo, um rio maldito correndo enlouquecido, completam-se 15 anos que Jeff Buckley morreu. Datas, quem precisa delas? Contar os anos que se passaram desde que sua potente voz foi silenciada não ajuda a manter o ânimo em estado aceitável. Consola pensar que suas músicas estão aí e outras pessoas podem sentir o espanto que o clipe no Alto Falante me causou. Ao menos isso.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Projeto Pagode em Prosa #4

A obsessão de Thiago atendia por um nome: Vanessa. Há tempos não tirava a morena dos pensamentos. Estava apaixonado, qualquer assunto o lembrava dela. Mas não era correspondido. E o inverno ficava mais monocromático a cada rejeição que sofria.

Ele era um sujeito romântico. Tinha um vasto repertório de galanteios. Enviou-lhe flores, caixa de bombons, dedicou música na rádio, fez amizade com a família dela... e nada. Ia até mandar um daqueles carros de mensagem, mas, sorte a dele, amigos o alertaram antes que fosse tarde. Vanessa agradecia os presentes, mas oferecia a amizade e nada mais. Thiago até fazia o papel de confidente, escutava com atenção as mágoas da garota sobre o ex-namorado, por mais tedioso que isso fosse. Era um bom moço.

As opções estavam acabando e o rapaz armou uma última investida. Se não desse certo, não haveria mais nada a se fazer. Portanto, ele se preparou ao seu melhor estilo: cortou o cabelo, estreou uma camisa nova e foi generoso ao salpicar perfume em si mesmo. Chamou Vanessa para um passeio pela praça. Se suas atitudes não surtiam efeito, ele seria direto e faria uma declaração de amor, a mais comovente que ela jamais havia escutado.

Naquela noite, ele segurou as mãos dela, olhou em seus olhos, recitou Shakespeare. Mas Vanessa não se manifestava. Então, Thiago partiu para o improviso. Apelou para o céu.

__ Você é tudo para mim, se me aceitar como seu namorado, não haverá limites que não ultrapassarei por você. A Lua, ali, tá vendo? Se me pedir, eu busco ela. Se bem que você é muito mais brilhante...

E nesse momento, Vanessa foi despertada de sua impassividade:

__ É sério? Você busca se eu pedir?
__ Claro, meu amor. Por você, tudo.
__ Ué... eu acho que eu quero a Lua. Pega ela para mim.

Thiago riu. Pela primeira vez Vanessa correspondia a um galanteio dele. Estava dando certo.

Ou não.

__ Me traz a Lua, Thiago. É sério.

Era mesmo. Vanessa queria a Lua, de verdade. 

E Thiago era um bom moço. Ao chegar em casa, ele procurou no Google o que era preciso para se tornar um astronauta.

Canção homenageada:

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Guia do Mau Humor - Capítulo 3: "As redes sociais"


Hoje, as redes sociais são essenciais nas nossas vidas. Nelas nos comunicamos, trocamos informações, nos mobilizamos para salvar o mundo, compartilhamos textos de blogs dos coleguinhas (o que é extremamente simpático)... e nos irritamos. Por que não? Afinal, ainda que virtualmente, são seres humanos que estão ali. Nem todo F5 que damos vai nos dar orgulho de nossa espécie...

Um problema fundamental nas redes sociais: a facilidade de confundir público e privado. Mal que nós conhecemos bem, Brasília que o diga. Mas aqui em outro sentido. As pessoas não têm a menor ideia do que deve ser compartilhado com seus amigos e o que deve ser guardado na intimidade.

O que nos leva ao vilão das redes sociais: a informação desnecessária. É muito freqüente no Twitter. Pessoal, será que é importante dizer para a comunidade o que você comeu hoje? Se estava bom? Os efeitos disso em seu intestino? Ou o que você fez a cinco minutos, e agora, e o que vai fazer nos próximos dez?

Bom senso, senão você perde um amigo mal-humorado. Lembre da sábia “tirada” do vocalista do Placebo no Serginho Grosiman: “sabe, meu caro amigo, às vezes menos é mais”. Brian Molko, ícone do mau humor. http://www.youtube.com/watch?v=Zh6ptRP7KzA

Vivemos em um tempo em que as pessoas expressam suas carências em atualizações na internet. Não basta estar triste porque seu periquito está doente. Você tem que colocar “LUTO” na frente do seu nome. Não basta visitar o sul do Paquistão. É preciso postar as 938 fotos que você fez. Ainda que o sorriso do tipo “aplicaram botox na minha bochecha” seja um só.

Aliás, outro terror: o “dig din feelings”. Marketing pessoal, esnobismo, a gente vê por aqui. As redes sociais são um instrumento para dizer ao mundo o quanto você é foda. Ou acha que é. Se as pessoas fossem tão confiantes quanto seus perfis virtuais são, não sei porque tem tantos caras hiperativos dando palestras motivacionais, berrando “SIM, VOCÊ VAI CONSEGUIR. POR QUÊ? PORQUE VOCÊ É O CARA!”.

Antes de ir ao próximo tópico, voltemos às fotografias. No passado, quando alguém lhe recebia em casa e o obrigava a ver as fotos ou/e o vídeo do casamento, isso era considerado uma eficaz forma de tortura. Hoje em dia, com as câmeras digitais, postam-se até fotos de batizado do cachorro. E as pessoas conferem. Voluntariamente. Cyber-sadomasoquismo?

Mas não para, não para, não para, não. Se até agora não foi o suficiente para você ver o quanto as redes sociais atiçam seu mal humor, é hora de apelar: as baranguices. Sim, o Facebook está dominado pelo brega, no mal sentido. Fotos de bebês guti-gutis, ou de gatinhos idem, com mensagem de “bom dia”? Sim, estão lá. Correntes do tipo “se não compartilhar vai morrer seco”? Check. E frases auto-ajuda, na falta de melhor definição? Também temos. Para todos os gostos. De frase do “Padre Gato” até o Mr. Catra, passando por Airton Senna, Caetano Veloso, Dean Winchester (personagem de “Supernatural”), e os literatos pops em citações aleatórias ou falsas, mesmo. A cada compartilhamento é uma revirada no túmulo do Caio F. Abreu e da Clarice Lispector. Nessas horas, você até fica feliz em só ter um blog pouco acessado.



E nossos amigos que querem nos “conscientizar” compartilhando fotos de animais/ pessoas mutiladas, ou com campanhas do tipo: “no Brasil um comediante [que fala coisas ofensivas] é levado a sério e ‘uspolítico’, na brincadeira”? É ou não para amar, só que ao contrário?

Enfim, vamos reconhecer: não dá mais para viver sem internet. Mas passar a vida toda sem cometer ao menos um “orkuticídio”, ou seja lá como o termo for atualizado? Só os fortes.   

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Guia do Mau Humor - Capítulo 2: "No Supermercado"


Não que o mundo em si já não seja um palco privilegiado para o mau humor. Mas se ele tem um templo, seu nome é supermercado. Não dá. Ali, até a mais serena das criaturas deixa sua natureza mal-humorada aflorar. Se você não ficar minimamente irritado em um supermercado, vale conferir se não tem uma aureola sobre sua cabeça.

Por motivos simples. 1) Supermercados estão sempre cheios. 2) Supermercados estão sempre cheios de pessoas. 3) Supermercados estão sempre cheios de pessoas não necessariamente educadas.

A tensão começa por uma constatação básica. A não ser que você seja filho de um mega empresário (Eike insuportável, se for o caso), não vai ficar feliz de ver seu dinheiro indo embora. O governo Sarney e sua inflação monstra já acabou, mas os supermercados ainda sugam nossas finanças com habilidade ímpar. É triste visualizar que mesmo as coisas mais básicas para uma existência – café, miojo, batata palha, bacon, se for da turma que come carne – tem seu preço. O dinheiro vai num tapa. Já as horas de trabalho para consegui-lo...

Mas o problema não é só esse. Em um supermercado dá de tudo, de tudo dá. É preciso ter alteridade. Só que você, mal-humorado de raiz, não vai passar ileso pelos tipos humanos que encontrará. Por exemplo, na seção de legumes. Sempre vai ter alguém escolhendo tomates na sua frente, com um poder invejável para encontrar os bons tomates. Você revira tudo e não encontra nada que preste. Já seu(ua) colega enche a sacola em um instante. Ser esnobado por alguém melhor do que a gente, mesmo que seja na arte de escolher os bons tomates, nunca é bom.

E os carrinhos? Se o supermercado estiver cheio (duvido que não estará), tem que olhar para os dois lados antes de atravessar um corredor.

Sem falar em quando você procura algo específico, como, por exemplo, cola Super Bonder. Supermercados sabem ser labirintos. Só que quando encontrar o seu “tesouro”, vai pagar por ele.

A provação para o mal-humorado, entretanto, ainda está por vir. As filas nos caixas. Quem sai ileso delas? Nessa etapa, não vamos mentir, é preciso ser forte. É hora de pensar em um bordão à Zorra Total, tipo “olha a angina!”, para manter a calma. Não será fácil.

Por quê? As filas estarão grandes. E isso é abrir precedente para que as pessoas sejam... pessoas. Se você der bobeira, alguém vai cortar a fila bem na sua frente. Sim, no século XXI, ainda tentam desses truques.

Não é raro o caixa dar problema logo quando você vai passar suas compras. E, de fato, os trabalhadores de supermercado não costumam estar no auge da sua simpatia. Não julgue. São colegas nossos, olha só. E o trabalho deles, convenhamos, não é fácil.

Por fim, um alerta. Cuidado com as filas preferenciais. Às vezes, todas as outras estão transbordando de carrinhos e o caixa preferencial aparece como um oásis. Raios de sol, coral de anjos mostram o caminho.

É miragem! Assim que você chegar lá, vão brotar velhinhos e mulheres grávidas. Você é mal-humorado(a), mas não é escroto(a), então não vai questionar o direito dessas pessoas. Vai ficar esperando. Não necessariamente feliz.

Posto isso, a dica é evitar os supermercados. Em algumas oportunidades, isso será impossível. Diante do inevitável, pense na possibilidade de ser um herói. Tente voltar para casa com a sanidade ilesa.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Guia do Mau Humor


Capítulo 1: Assumindo-se

Você não tem muita paciência com algumas particularidades dos nossos pares da espécie humana. Não acorda esbanjando simpatia. Usa de fones de ouvido como escudo para evitar diálogos gratuitos. Chegou ao cúmulo de se identificar com a Xuxa no famigerado episódio do “Aham, senta lá, Cláudia”. Sim, você é uma pessoa mal-humorada.

E o que nós queremos dizer é: tudo bem. Mesmo. Não há mal nisso. Inclusive, negamos o teor negativo aplicado ao termo. O ideal seria dizer que você tem um humor, digamos, diferenciado. E diferenciar é bom.

Qualquer filosofia de botequim dirá que as pessoas se constroem a partir do reconhecimento que as outras pessoas têm delas. E seu mau humor é um sintoma de anti-sociabilidade, um grito de independência do seu ser, que não quer simplesmente “seguir a manada”.

Dessa maneira, o mau humorado não é nocivo à sociedade, como tantos imaginam. Não. Precisa-se de gente que vá contra o óbvio. Senão o mundo vira uma grande histeria coletiva.

Se isso não ajudá-lo a se sentir melhor com seu mau humor, pense em você como um velinho rabugento em formação (a não ser que já seja um idoso; aí você já é a realização). O que seria da humanidade sem esses adoráveis senhores (as), sábios seres que chegam no poente da vida e compartilham seu ceticismo conosco?

O mundo precisa dos seres mal-humorados. Mas talvez ele não retribua como deveria. Você vai se sentir excluído por seu humor diferenciado. Por exemplo, quando aquele conhecido mostrar o filhinho dele que mal sabe andar, fazendo alguma “dancinha da moda” (coff, coff, “Ai se eu te pego”). Você não vai achar graça. Lembrará que macaquinhos amestrados também fazem isso. Temerá pelo futuro da criança. E vai se sentir o pior ser humano do universo.

Mas você não é – ao menos, não por isso. Tem que ter alguém para torcer contra o Barcelona. Ou que não goste de Beatles.

Para você não se sentir tão solitário nessa tarefa, acompanhe os próximos capítulos desse guia. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os sonhos do Sr. Oliveira

            Envelhecer é realmente uma coisa horrenda. Sr. Oliveira demorou a aceitar esse fato. Na juventude, ele esbanjava vitalidade. Tinha o físico de um touro e uma disposição respeitável.
Mas quando foi inevitável reconhecer que o peso do tempo em suas costas já era visível, ele se esforçou para lidar bem com isso. Afinal, foram-se setenta e sete primaveras. Não podia negar que o outono se aproximava.
Sr. Oliveira refugiou-se, então, na rotina pacata de um aposentado. Gostava de passear com seu cachorro pela manhã. Iam até a padaria, desfrutando o frescor das seis horas. O dia esbanjava o frescor nesse momento e as ruas exibiam tranqüilidade igual a do tempo de sua juventude.
Voltava para casa com os pães, o cachorro e o jornal. Ficaria a manhã toda folheando tranquilamente as páginas, comentando as notícias com a esposa e repreendendo o neto adolescente, que só acordaria depois das dez.
Em algumas manhãs, todavia, Sr. Oliveira ficava inquieto. Culpa de sonhos que periodicamente vinham perturbá-lo. Nada de novo, era o seu passado que vinha visitá-lo. Lembranças dos tempos em que sua patente militar precedia seu nome mesmo nas relações familiares. De subterrâneos, com umidades nas paredes e gritos de dor aterrorizantes ao fundo. Jovens barbudos em sua frente se negando a confessar. E ele os torturando. Pelo bem da pátria.
Sr. Oliveira não sentia culpa. De fato, até se orgulhava. É que aqueles gritos... Ele só queria que eles não fossem tão viscerais. E tantos. Tantos...