No espelho, ele deu uma última conferida no visual. Impecável, como sempre. Sua acessoria era rigorosa, escolhia com cautela as roupas, para que estivesse sempre o mais adequado. Lá fora, uma voz feminina, das tantas que o cercavam, chamou, dizendo que estava na hora. Ele não respondeu. O evento só aconteceria se ele saísse dali. Só seria “a hora” quando abrisse a porta. E ele não faria isso agora. Abriu a gaveta da cômoda e pegou o pó. Sobre a mesa, com superfície lisa e convenientemente polida, despejou-o.
Antigamente, nesse momento, seu coração estaria palpitante, como o de um garoto ansioso por uma grande noite. Ele ajeitaria a carreira com mãos trêmulas, nervoso pelo regozijo que encontraria. Porém, a afobação juvenil estava extinta. Estava tenso, sim, mas porque queria fazer aquilo logo. O que outrora constituía um ritual, agora era executado com o automatismo de quem monta seu prato de comida. Com gestos de um cirurgião afobado, ele organizou seu “caminho da felicidade”.
Organizada a fileira, nela ele se debruçou, aspirando com sede de algo que ele nem sabia o que era. Já tinha tanto dinheiro que nem se beneficiava com o permanente aumento de sua fortuna. Possuía status, era adorado por milhares. Nesse momento, uma multidão o aguardava e explodiria em louvores quando ele surgisse. Todavia, nada disso o entusiasmava. Nem mesmo a coca, que a cada cheirada era consumida em maior quantidade, o animava. Embora servisse.
Nesse tempo, outras vozes já haviam chamado, todas pedindo que se apressasse. Ele as ignorava. Olhou para o relógio, o atraso era mesmo significativo. Que esperassem! Era a terceira inauguração de obra só naquela semana. Dali há alguns minutos estaria diante das câmeras, cortando uma fita na frente de uma nova escola, hospital, ponte, tanto faz. Sorrindo.
Mas não agora. Antes, precisava deixar-se escorregar na cadeira. Ela estava tão confortável...
sábado, 20 de março de 2010
sem título
quarta-feira, 3 de março de 2010
Um pulo
Laçados
Pela corda sarnenta.
Na firmeza da árvore
Uma segurança
Que não se encontra em todo o resto.
A garganta amarga
Por arrotos
De rancores e álcool
Agora está apertada
Num nó que lhe é externo.
As esperanças por um futuro melhor?
Não perduraram ao fim de ano da Globo.
Os sinos não se dobram
Mas as maritacas fazem alvoroço.
Um pulo
Acabou.
sábado, 13 de fevereiro de 2010
Coming Up Roses
As férias significavam libertação. Estudar, uma obrigação da qual eu, assim como todos da minha idade, queria me livrar. Cada ano passado era um ano a menos a ser estudado. Até que chegaria um dia em que não haveria nenhum dark sarcasm in the classroom a nos aterrorizar.
Entretanto, minhas férias nunca foram excepcionais. A palavra janeiro me traz lembranças de minguadas viagens, a ressaca dos presentes do Natal, o encontro de algum conforto do calor sul mineiro na imbatível piscina de mil litros, a ausência de futebol na tv... As férias não eram de todo mal, mas não havia aquela diversão esperada.
E, a bem da verdade, a espera pela festa é mesmo a sua melhor parte. Porque a celebração, em si, sempre deixa a desejar. Passaram-se uma porção de anos e não me libertei dos estudos, pelo contrário, o projeto por longa data em minha vida. Sem me sentir oprimido.
Minhas férias de 2010 certamente entediariam o menino que se virava em janeiro com partidas da Copa São Paulo de Futebol Jr. na falta de opção. Mas elas me satisfizeram. Assisti algumas boas séries televisivas, fiquei por semanas encostado sem poder andar, porém me livrei de uma mazela hereditária, chacoalhei a cabeça com o Metallica e, talvez o melhor, vi que dá para viver em família em um apartamento da MRV. Pode não ser o mais exuberante dos oásis. Mas me contento com sua água fresca.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Flashes na Escuridão - Capítulo 5
5
Tuco estava de fora na sinuca. Resolveu, então, sair do bar, enquanto Alemão e Nenê enfrentavam Chicão e Cabeça. O bom da sinuca era jogar, não ficar assistindo. Lá fora, Tuco levou seu copo de cerveja e ficou observando a noite. Uma ex namorada havia dito que a favela era bonita à noite, com suas luzes desordenadas simulando um céu estrelado. “Céu estrelado! Porra nenhuma! Que céu tinha cheiro de cachorro vira-lata, poeira e cimento?” Agora, tinha certeza de como era descabido aquele comentário. Também, ele vinha da Nina. Moça bonita, bem nascida, estudante de ciências sociais. Queria estudar a sociabilidade dos excluídos, participava de projetos sociais e, então, chegou no ponto de namorar um favelado. Foi o Tuco. Achava tudo lá bonito, o samba e o funk, as pipas, as conversas pelas ladeiras, as gírias... Ela já estava planejando ir morar no morro, tinha até pesquisado aluguel, mas o namoro acabou. Para a felicidade dos seus pais, que abominavam as decisões impulsivas da filha.
Tuco gostava mesmo era de ver o bairro lá de baixo. Aqueles prédios imensos, ordenadinhos, com janelas tão grandes e sacadas com plantas. As coberturas, movimentadas nos churrascos de sábado, as quadras e piscinas com aquelas crianças limpinhas, quando não estavam com seus uniformes brancos e passados para ir à aula. Aquilo é que o encantava, ver aquelas fileiras de luzes, empilhadas e alinhadas.
Enquanto pensava, esvaziando seu copo, aquilo que comparava desapareceu. Nem na favela, nem no bairro nobre, as únicas luzes que sobraram eram as do céu. No bar, seus amigos praguejavam, já que o jogo estava interrompido. Tuco entrou e ajudou o Seu Gilson a procurava velas. Logo o bar estava iluminado novamente, naquele tom amarelo desbotado das chamas, e a sinuca pode continuar. Havia apostas, o jogo não podia parar.
Não sem algum bate-boca e reclamações, a partida terminou uns dez minutos depois. Os amigos não iam jogar outra vez. O apagão já durava algum tempo, então, em alguns cochichos, eles combinaram o que iriam fazer. Havia uma cidade lá, desprevenida, esperando que eles atacassem. Na manhã seguinte, uma nota no jornal anunciaria o arrastão, enquanto eles estariam contabilizando o saldo do saque. Era assim que as coisas eram.
Porém, naquela ação, algo se inverteu. Tuco, que admirava, lá de cima, aquele mundo ordenado dos grandes prédios, agora o tinha a seus pés. Por um breve momento, ele se fazia senhor naquela parte da cidade em que não era desejado. Agora, ele tinha poder por lá. No escuro.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Flashes na Escuridão - Capítulo 4
A ausência e a escuridão
Por Fabrício Alves
A trajetória pela rua,
A espessura dos degraus na escada,
A disposição dos móveis,
A ordem das atividades que vou fazer:
Tudo decorado.
Mas um zumbido
Qual um assopro divino
Proclama as sombras
E eu tateio pelo caminho
Tropeço pelas escadas
Trombo em móveis
Desnorteado.
Um brinde ao inusitado!
Todavia
Mesmo sufocado em trevas
Contemplo a face do vazio
Que me mata.
Pois nenhum blecaute pode apagar
A presença de tua ausência.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Flashes na Escuridão - Capítulo 3
3
Casa. Alice queria estar em casa e o relógio marcava 22:12. Tentava, apesar da miopia, adivinhar o número dos ônibus e dentre eles ver o seu. Mas este não a levaria para casa. Santa Bárbara d’Oeste não poderia ser alcançada por um ônibus circular paulistano. Com ele, Alice só chegaria até a república em que morava. Não era a casa. Porém, tinha sua cama.
Estava cansada. Saía do trabalho, em uma loja de roupas, direto para a faculdade. Curso de jornalismo, não exigia muito, o importante para a instituição era que pagasse as mensalidades. O que já era um desafio para Alice.
22:13 e as luzes se apagaram. Ver os números dos ônibus ficou ainda mais difícil. A rua era alternada por trevas e a luminosidade agressiva dos faróis de automóveis. Porém, quando os carros passavam, tudo retornava a escuridão. O ponto de ônibus, há um minuto atrás com pessoas invisíveis para a Alice, preocupada com os números dos coletivos, agora que envolto em escuridão, estava repleto de personagens bem presentes. E assustadores. Vozes sinistras, mais perto de seus ouvidos do que ela gostaria. Movimentos bruscos sentidos pelo deslocamento de ar. Todos perigosamente protegidos pela identidade escondida e ameaçadoramente propensos a atacá-la. Apertou a bolsa junto ao corpo. Puxou para baixo a saia, tentando proteger as pernas expostas.
Risadas maliciosas. Só podiam ser endereçadas a ela. Não tinha muito dinheiro, nunca tinha. Mas o celular ela não podia perder. Nem as apostilas da faculdade. O corpo, então, estava tão desprotegido! Alice tremia, a rua estava ficando tensa, vozes desordenadas pairavam por todos os lados. Outros ônibus chegavam, mas não eram o seu. E nada de as luzes voltarem.
Eram 22:21 quando as primeiras lágrimas de Alice começaram a escorrer. Então, enfim, seu ônibus chegou. Mesmo que não a levasse para casa, agora, ela só queria distância das vozes ao seu redor. Ele ia servir.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Flashes na Escuridão - 2º capítulo
José Márcio não costuma prestar atenção a detalhes. Por isso não percebeu quando o som do frigobar, ao lado, da cama parou. Também não viu que na tv desligada, desapareceu a pequena luz, indicadora de que era só apertar o “power” do controle remoto para despertá-la. A cidade toda aprofundava-se em trevas absolutas e ele e Laura enlaçavam-se em uma escuridão privada.
As luzes apagadas era rotina para os amantes, talvez para amenizar a sensação de pecado. Era um caso de conveniência: ele precisava de alternativas para o casamento insosso e ela, de afagar o fragilizado ego de solteira aos 30 e poucos. Não precisavam de ser românticos um com o outro, sequer de lembrar o passado ou projetar o futuro da relação. Sem conversas. Apenas ação.
Na extrema ausência de luz, contra-atacava o celular de José Márcio, piscando incessantemente. Ligações e mais ligações de sua esposa. Preocupada, ela ligara para o hospital onde o marido teria uma emergência médica. Ele não estava lá. E ela, que sempre ignorava os indícios de traição, começaria a desconfiar da passividade com que seu esposo aceitava a conversa sobre dor de cabeça.
Finalizado o ato, Laura e José Márcio comungavam do mesmo cigarro e silêncio. A janela entreaberta do quarto de hotel denunciava uma tonalidade misteriosa no escuro da noite. Obviamente, nenhum dos dois observou isso. Márcio levantou para se vestir e, enfim, percebeu que o blecaute estava acontecendo. Despediu-se com um beijo e deixando um cigarro extra. Laura ficaria no quarto até o dia seguinte, aproveitando a diária paga.
Ao sair do quarto, José Márcio viu no celular as chamadas não atendidas. Teria que pensar em outra desculpa para a mulher, paciência. O que o irritou de verdade foi perceber que o elevador não estava funcionando. Sete andares para baixo e outros oito para subir, quando chegasse em casa. Nessa experiência com degraus, o médico poderia aprender que depois do terceiro lance de escadas, suas pernas ficavam amortecidas e a atividade nem era tão desgastante assim. Mas ele não prestava atenção em detalhes.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Flashes na Escuridão
1
Jornal Correio Paulistano, 12 de novembro de 2009.
Espaço Fino, por Tony Tourlon
Rigoleta Martins, empresária e designer de interiores, comemorou, na noite dessa terça-feira seu aniversário. O estabelecimento escolhido foi o restaurante Saveur Savoureux, no Morumbi, fechado para o evento.
A decoração, idealizada pela aniversariante, esbanjava bom gossto, com cristais e arranjos de orquídeas nas mesas. “Para receber tanta gente bonita, especial, tive que pensar em algo à altura”, disse Rigoleta. A atriz Clara Muniz ressaltou a beleza do lugar e o evento: “Ah, está ótimo, o lugar é maravilhoso, ficou lindíssimo. A Rigoleta é tudo de bom, só ela para nos presentear com esse cenário logo no aniversário dela”.
O artista plástico Jonas Torrão e sua esposa, a cantora Ana Lima, vizinhos da homenageada, mostravam-se empolgados com o repertório tocado pelo grupo Chorando Um Chorinho. Também escutava as canções com atenção o vereador Clóvis Lopes, pai do flautista da banda, Tião Lopes. Quem era aguardado, mas não pode comparecer foi o empresário saudita Ali Ahmaahed, que enviou de Paris um telegrama à Rigoleta.
Porém, quando a festa encaminhava para seu ápice, com o discurso da aniversariante e o prato principa, o blecaute que atingiu 40% do país não poupou o Saveur Savoureux. Os garçons empenharam-se com velas para iluminar as mesas, pois o sistema de luz de emergência do restaurante falhou. Nisso, os músicos não podiam continuar tocando e muitos convidados se retiraram, já que o ambiente estava caótico. O evento, então, acabou mais cedo. Rigoleta Martins lamentou o ocorrido, mas já planeja uma nova festa. “Vou processar. Essas luzes de emergência não podiam falhar. Converso com meu advogado em breve. Uma pena, nem pude me despedir direito de meus convidados. O remédio será fazer outra festa, um aniversário comemorado com tanto tumulto seria mal presságio. Só que nesse restaurante, não comemoro mais”, disse a designer, risonha até em sua irritação.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Bachianas aos finados
Isso repetido três vezes, com abertura e encerramento à cargo da Bachiana nº5, do Villa-Lobos. Assim eram anunciadas as mortes do bairro na Igreja próxima à minha casa. Provavelmente continua próximo disso.
Lembro bem da sensação de susto quando começava o canto de soprano nos alto-falantes sagrados. Em instantes, cabeças apontavam das janelas das casas. Os cidadãos dirigiam-se para as portas da rua de bares, padarias e afins. Quem passava pela rua desacelerava o passo. Todos de orelhas em pé. E, quando no ápice da atenção, a voz do narrador ia dizer o nome do morto, algum carro passava, muitas vezes até caminhão, entupindo com barulho de motores o silêncio alvejado. Era muito difícil entender de primeira o anúncio.
Eu logo perguntava para minha mãe: “Você conhece?” Geralmente a resposta era afirmativa. Ela descrevia algum parente de outra pessoa que eu também não fazia a menor idéia de quem fosse. A morte era uma coisa vaga para mim, só acontecia com desconhecidos.
Pensamos em tantos projetos para nossa vida: obter riqueza, escaladas profissionais, relacionamentos confortáveis, viajar pelo mundo, ver grandes shows... ou, o mais básico, encontrar um sentido para levantarmos nas manhãs. Gastamos boa parte de nosso tempo empenhados em concretizar sonhos, para usar o termo mais piegas possível. Sofremos, e sofremos nessa jornada. Mas, no final, a glória está assegurada: nosso nome entoado em uma torre de Igreja.
