Olá! Um informe aos desavisados que porventura ainda me procuram por aqui: este blog não morreu! Ele segue respirando, mas em outro plano. Atualmente, publico textos no site Digestivo Cultural. Lá, no lado esquerdo da tela, em "COLUNAS", você poderá ver "Luís Fernando Amâncio" nas terças-feiras. Para acessar o site, clique aqui. Estarei por lá até que este mundo termine em coxinhas - um apocalipse nada distante.
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Depois de uma espera de sete
anos, os fãs de Fiona Apple receberam em 2012, enfim, o sucessor de Extraordinary Machine. E o novo álbum já se impõe no título, um poema escrito
pela cantora/ compositora: The
Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve
You More Than Ropes Will Ever Do.
Mas eu pergunto: por que esperar por Fiona? A indústria musical despeja
pencas de cantoras com vozes singulares e influências de jazz e rock
alternativo. Eu poderia enumerar umas cinco delas se quisesse polemizar. Surgem
com uma aura cult e, contraditoriamente, tornam-se populares. Para
depois sumir.
Nos anos 1990, quando surgiu com Tidal (1996), Fiona Apple podia
ser compreendida como um caso desses. Era claramente um achado musical. Com
apenas 19 anos, ela lançava um álbum elogiado e repleto de músicas marcantes.
“Sleep to Dream” e “Criminal” mostravam uma cantora com personalidade e uma
admirável voz contralto. Foi hit, álbum platinado e vencedor de Grammy.
Em When the Pawl... (1999) o sucesso não foi o mesmo, mas Fiona
manteve a qualidade. E nos anos seguintes, ela sairia dos holofotes,
mostrando-se um caso sincero de inadaptação ao mainstream. Pois existe o
glamour de “não se adaptar à fama”. No caso da cantora, porém, o
incômodo com a exposição midiática é real.
The Idler Wheel... é, provavelmente, o melhor álbum de Fiona
Apple, ainda que seja uma afirmação um tanto pessoal. É um cd homogêneo, as
canções, apesar de compostas ao longo do hiato de sete anos, são bastante
coerentes entre si. Ele é mais cru do que os anteriores, sem arranjos
orquestrais ou batidas dançantes, por exemplo. De um modo geral, as músicas são
construídas na base voz + piano + percussão.
Fiona Apple traduz em música seu universo, que é bastante particular em
sua tempestuosidade. Nele, a doçura e a beleza não excluem tormentos, aflições
e desencanto. É o caso da faixa de abertura e primeiro single, “Every
Single Night”. A canção varia de um início sutil para um
refrão potente, onde a cantora declara que “every single night is a fight with
my brain”. Sobram asas brancas de borboletas em chamas no cérebro e ideias
escorrendo na coluna da moça. E o cd começa muito bem.
“Daredevil”, em seguida, confirma que escutaremos a voz de Fiona em
carne viva em The Idler Wheel... . “Valentine” seria uma balada, mas
baladas não combinam com a cantora e o refrão deixa a música realmente
interessante.
Mais à frente, com “Left
Alone”, Apple é feroz e brada “how can I ask anyone to love me/ when all I do
is beg to be left alone”. Para muitos,
é incômodo ver a atual magreza da cantora, com olheiras que engolem seus olhos
azuis. Não deveria. A vida, convenhamos, não é lá muito fácil de digerir. É
milagre que todos nós não tenhamos distúrbios alimentares.
É um álbum curto. São 10 músicas e 42 minutos. Pouco, em números, para
tanto tempo de espera. Porém, The Idler Wheel... é intenso e não há
canção nele que se destaque negativamente. Pelo contrário, é preciso ressaltar
a beleza de “Werewolf” e “Anything We Want”.
Assim, fica a resposta para a pergunta lá no início. Espera-se pelos
retornos de Fiona Apple porque eles não decepcionam. Seu ritmo lento de
produção não esconde uma artista em decadência. Pelo contrário, parece ser uma
condição necessária para que ela produza álbuns sinceros. E que, ao que tudo
indica, valem mais do que quase tudo que foi feito na música pop de 1996 para
cá.
*Em tempo: foram anunciados três shows da Fiona Apple no Brasil. A novaiorquina
passará por Porto Alegre (27/11), São Paulo (29/11) e Rio de Janeiro (30/11).
Quando, em agosto de 2007, a
vocalista Anneke van Giersbergen deixou o The Gathering, o chão se abriu para
os raros fãs da banda. Pois não era uma simples troca de integrante. A entrada
de Anneke marcou a mudança no som do grupo, que progressivamente foi
abandonando estilos mais pesados (doom/ gothic metal) para sonoridades mais
atmosféricas, que a banda denominou trip
rock (alusão ao trip hop de
grupos como o Portishead).
Mais do que esse marco
simbólico, Anneke se tornou a “cara” do The Gathering. Com sua bela voz e o assombroso
carisma, a cantora não poderia ocupar lugar diferente. Foi tão protagonista na
banda que resolveu dar seu vôo solo. Ser seu próprio rosto.
E agora, cinco anos depois,
podemos ver que o rompimento, embora dolorido aos entusiastas do grupo, foi
honesto. Everything is changing,
terceiro álbum solo de Anneke (os dois anteriores usaram o nome Agua de Anique
como transição) indica que a cantora está convicta em flertar com o pop. Vide o
clipe de "Take me Home".
Já o The Gathering lançou
nesse mês seu segundo trabalho pós-Anneke, Disclosure.
Esse álbum teve maior participação de Silje Wergeland (ex-Octavia Sperati), norueguesa
que assumiu os vocais. O anterior, West
Pole (2009), ela encontrou praticamente pronto. E Disclosure é um atestado de que o The Gathering segue fiel ao seu trip rock, sem soar repetitivo no
caminho que escolheram.
No álbum novo, os holandeses liderados
pelos irmãos Hans e René Rutten incorporam mais características do rock
progressivo, outro rótulo que costuma ser utilizado para definir sua
sonoridade. Não o progressivo de intermináveis solos virtuoses, é bem verdade, mas
na exploração da capacidade sensorial da música.
“Paper Waves”, apresentada ao
público brasileiro no show da banda em julho de 2011, abre o disco. É uma faixa
eficaz como abertura do disco, mostra que o que virá a seguir é promissor. Os
saudosistas podem até sentir falta de Anneke, mas Silje cumpre bem a árdua
tarefa de substituí-la. Sobretudo por soar bem e em seu próprio estilo.
“Meltdown”, em seguida, é a
música mais ousada do cd. Além do vocal masculino (estreia do tecladista Frank
Boeijen na função), algo que não ocorria desde “A Life All Mine”, de Souvenirs (2003), a música inicia com
uma dinâmica bastante moderna. Porém, pela metade, ela toma rumo mais
introspectivo. De fato, Disclosure é
um álbum de músicas longas e com variações internas. “Heroes For Ghosts”,
quarta faixa, que teve um clipe lançado no ano passado, dura mais de dez
minutos. Épica, mostra uma banda entrosada.
“Paralyzed”, terceira música,
é a que mais se aproxima de uma balada no disco e, de fato, tem potencial para single. Conta com uma bela melodia vocal
e um acompanhamento bem digno.
Disclosure tem
também uma faixa dividida, “Gemini I” e “Gemini II”, essa encerrando o cd. “Missing
Seasons” talvez seja a canção que menos chama a atenção no cd. “I Can See Four
Miles” reforça que, mais do que faixas grandes, temos músicas grandiosas no
décimo álbum de inéditas do The Gathering.
O supracitado show dos
holandeses em São Paulo, no ano passado, mostrou que o impacto gerado pela
saída da ex-vocalista afetou o número de seguidores do grupo. O público que
compareceu naquele domingo foi consideravelmente menor que aquele do outro show
da banda no Brasil, em 2006, ainda com Anneke – o tamanho do local onde os eventos
ocorreram também transmite essa realidade, do Via Funchal para o Hangar 110.
Disclosure nos
faz concluir que, junto da separação entre os integrantes, também ocorreu uma entre
seus seguidores: foram-se os(as) tietes de Anneke, ficando os verdadeiros fãs
da banda. Pois musicalmente é inegável que o The Gathering mantém sua
identidade. Com mudanças, claro, pois trata-se de uma característica de sua
trajetória. Mas eles seguem explorando as possibilidades do trip rock. Seus fãs da banda podem ser
poucos, todavia são convictos de serem uns privilegiados.
Minha
intuição sempre foi apurada em relação à música. Grande parte das bandas e artistas que
compõem o meu panteão foram percebidos com rápidas amostras. Por isso, poucas
decepções guardo comigo nesse tempo em que me tornei um apreciador musical, com
a dedicação que tal arte merece.
Com
Jeff Buckley não foi diferente. Ainda muito jovem, lá pelos treze anos, vi
pela primeira vez um vídeo dessa figura, por intermédio de Terence Machado e
seu Alto Falante. Na época, porém, meus ouvidos necessitavam de mais distorções,
assim como os homúnculos em Full Metal Alchmist necessitam de pedra vermelha.
Mesmo assim, lembro que a música, que não lembro qual era, me causou uma ótima
impressão, embora não fosse o que eu buscava escutar.
Guardei
o nome e a fidelidade ao programa da Rede Minas. Vi mais algumas vezes Jeff
Buckley nesse canal até o Kazaa e minha internet discada me
proporcionarem um maior contato com a obra desse compositor. E, até hoje, nas
minhas audições já não ocasionais, sinto o mesmo espanto daquela primeira vez.
Primeiramente, o mais óbvio, pela qualidade vocal. Será que conheço outros
vocalistas que atinjam agudos tão certeiros, prolongados, angustiados, sem
destruir o timbre de sua voz? Dificilmente. Jeff Buckley cantava com facilidade
melodias incertas que vão desde o suspiro de “I love you, but I´m afraid to
love you” em So Real, até gritos prolongados do refrão “Wait in fire” de Grace.
Só por isso, ele já seria um inigualável acréscimo à produção musical.
Entretanto,
ele acrescentou bem mais. Sua sensibilidade aliada de sua capacidade como
compositor fazem com que suas músicas sejam dotadas de uma carga de alto teor
emocional. Existem bons compositores que fazem música agradável. Os melhores,
porém, são aqueles que colocam um algo mais que dá vida à composição.
Justamente, a vida do artista. Por isso a importância da dinâmica interna
de suas músicas, com dedilhados leves na guitarra e distorções convivendo em
uma mesma música; ou o descontraído cover de Yard Of Blonde Girls e Everybody
Here Wants You em um mesmo disco. Dinâmica. É difícil encontrar músicas
melancólicas com variações. Talvez por isso eu não goste de Belle And
Sebastian. Nem afins.
Por
isso e muito mais, não consigo pensar em Jeff Buckley como mais um talento que
tenha surgido na música pop. Isso é impensável. Ele está em uma categoria muito
mais seleta, a de artistas que atingem uma profundidade muito além da do
convencional. Categoria que, com o perdão dos puristas que buscariam pares na
década de sessenta, ou algo do tipo, vejo amplamente desabitada.
Infelizmente,
escrever sobre Jeff Buckley implica esbarrar no tema da sua morte. Evento que,
penso, foi uma das maiores tragédias que a música já vivenciou. Afinal, morrer
afogado, antes de concluir os acertos do seu segundo álbum foi uma saída
triunfalmente romântica. Trágica, sobretudo. Com todo o peso que essa palavra
possui. Nem nisso o filho de Tim Buckley é superável.
Como
o fluxo do tempo é contínuo, um rio maldito correndo enlouquecido, completam-se
15 anos que Jeff Buckley morreu. Datas, quem precisa delas? Contar os anos que
se passaram desde que sua potente voz foi silenciada não ajuda a manter o ânimo
em estado aceitável. Consola pensar que suas músicas estão aí e outras pessoas
podem sentir o espanto que o clipe no Alto Falante me causou. Ao menos isso.