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sábado, 15 de outubro de 2016

Este blog não está morto

Aos meus caros e raros leitores,

Olá! Um informe aos desavisados que porventura ainda me procuram por aqui: este blog não morreu! Ele segue respirando, mas em outro plano. Atualmente, publico textos  no site Digestivo Cultural. Lá, no lado esquerdo da tela, em "COLUNAS", você poderá ver "Luís Fernando Amâncio" nas terças-feiras. Para acessar o site, clique aqui. Estarei por lá até que este mundo termine em coxinhas - um apocalipse nada distante.

Também aproveito a ocasião para anunciar que um conto meu à venda no site da Amazon como e-book. O nome do conto é "Garanhãodiscreto.85" e ele é inédito. Quem tem um Kindle poderá lê-lo através de seu aparelho, mas também é possível baixar o aplicativo da Amazon e ler o conto em seu tablet ou celular. O conto está disponível neste link. 

Lembrando também que meu primeiro livro, Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas (Editora LiteraCidade, 2014), um clássico da literatura intergalática, está quase se esgotando. Quem ainda não comprou o seu, corre, entra em contato comigo e garanta o seu exemplar! Senão, vai por mim, você estará desatualizado nas tendências e vai ficar excluído no seu círculo de amigos! Meu email é . O preço do livro é R$20,00.

Obrigado pela preferência!

Um abraço,

Luís Fernando Amâncio

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Discografia comentada: Fiona Apple – “The Idler Wheel...” (2012)



Depois de uma espera de sete anos, os fãs de Fiona Apple receberam em 2012, enfim, o sucessor de Extraordinary Machine. E o novo álbum já se impõe no título, um poema escrito pela cantora/ compositora: The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do.

Mas eu pergunto: por que esperar por Fiona? A indústria musical despeja pencas de cantoras com vozes singulares e influências de jazz e rock alternativo. Eu poderia enumerar umas cinco delas se quisesse polemizar. Surgem com uma aura cult e, contraditoriamente, tornam-se populares. Para depois sumir.

Nos anos 1990, quando surgiu com Tidal (1996), Fiona Apple podia ser compreendida como um caso desses. Era claramente um achado musical. Com apenas 19 anos, ela lançava um álbum elogiado e repleto de músicas marcantes. “Sleep to Dream” e “Criminal” mostravam uma cantora com personalidade e uma admirável voz contralto. Foi hit, álbum platinado e vencedor de Grammy.

Em When the Pawl... (1999) o sucesso não foi o mesmo, mas Fiona manteve a qualidade. E nos anos seguintes, ela sairia dos holofotes, mostrando-se um caso sincero de inadaptação ao mainstream. Pois existe o glamour de “não se adaptar à fama”. No caso da cantora, porém, o incômodo com a exposição midiática é real.

The Idler Wheel... é, provavelmente, o melhor álbum de Fiona Apple, ainda que seja uma afirmação um tanto pessoal. É um cd homogêneo, as canções, apesar de compostas ao longo do hiato de sete anos, são bastante coerentes entre si. Ele é mais cru do que os anteriores, sem arranjos orquestrais ou batidas dançantes, por exemplo. De um modo geral, as músicas são construídas na base voz + piano + percussão.

Fiona Apple traduz em música seu universo, que é bastante particular em sua tempestuosidade. Nele, a doçura e a beleza não excluem tormentos, aflições e desencanto. É o caso da faixa de abertura e primeiro single, “Every Single Night”. A canção varia de um início sutil para um refrão potente, onde a cantora declara que “every single night is a fight with my brain”. Sobram asas brancas de borboletas em chamas no cérebro e ideias escorrendo na coluna da moça. E o cd começa muito bem.

“Daredevil”, em seguida, confirma que escutaremos a voz de Fiona em carne viva em The Idler Wheel... . “Valentine” seria uma balada, mas baladas não combinam com a cantora e o refrão deixa a música realmente interessante.

Mais à frente, com “Left Alone”, Apple é feroz e brada “how can I ask anyone to love me/ when all I do is beg to be left alone”. Para muitos, é incômodo ver a atual magreza da cantora, com olheiras que engolem seus olhos azuis. Não deveria. A vida, convenhamos, não é lá muito fácil de digerir. É milagre que todos nós não tenhamos distúrbios alimentares.

É um álbum curto. São 10 músicas e 42 minutos. Pouco, em números, para tanto tempo de espera. Porém, The Idler Wheel... é intenso e não há canção nele que se destaque negativamente. Pelo contrário, é preciso ressaltar a beleza de “Werewolf” e “Anything We Want”.

Assim, fica a resposta para a pergunta lá no início. Espera-se pelos retornos de Fiona Apple porque eles não decepcionam. Seu ritmo lento de produção não esconde uma artista em decadência. Pelo contrário, parece ser uma condição necessária para que ela produza álbuns sinceros. E que, ao que tudo indica, valem mais do que quase tudo que foi feito na música pop de 1996 para cá.

*Em tempo: foram anunciados três shows da Fiona Apple no Brasil. A novaiorquina passará por Porto Alegre (27/11), São Paulo (29/11) e Rio de Janeiro (30/11). 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Discografia comentada: “Disclosure” (2012), The Gathering


Quando, em agosto de 2007, a vocalista Anneke van Giersbergen deixou o The Gathering, o chão se abriu para os raros fãs da banda. Pois não era uma simples troca de integrante. A entrada de Anneke marcou a mudança no som do grupo, que progressivamente foi abandonando estilos mais pesados (doom/ gothic metal) para sonoridades mais atmosféricas, que a banda denominou trip rock (alusão ao trip hop de grupos como o Portishead).

Mais do que esse marco simbólico, Anneke se tornou a “cara” do The Gathering. Com sua bela voz e o assombroso carisma, a cantora não poderia ocupar lugar diferente. Foi tão protagonista na banda que resolveu dar seu vôo solo. Ser seu próprio rosto.

E agora, cinco anos depois, podemos ver que o rompimento, embora dolorido aos entusiastas do grupo, foi honesto. Everything is changing, terceiro álbum solo de Anneke (os dois anteriores usaram o nome Agua de Anique como transição) indica que a cantora está convicta em flertar com o pop. Vide o clipe de "Take me Home".

Já o The Gathering lançou nesse mês seu segundo trabalho pós-Anneke, Disclosure. Esse álbum teve maior participação de Silje Wergeland (ex-Octavia Sperati), norueguesa que assumiu os vocais. O anterior, West Pole (2009), ela encontrou praticamente pronto. E Disclosure é um atestado de que o The Gathering segue fiel ao seu trip rock, sem soar repetitivo no caminho que escolheram.

No álbum novo, os holandeses liderados pelos irmãos Hans e René Rutten incorporam mais características do rock progressivo, outro rótulo que costuma ser utilizado para definir sua sonoridade. Não o progressivo de intermináveis solos virtuoses, é bem verdade, mas na exploração da capacidade sensorial da música.

“Paper Waves”, apresentada ao público brasileiro no show da banda em julho de 2011, abre o disco. É uma faixa eficaz como abertura do disco, mostra que o que virá a seguir é promissor. Os saudosistas podem até sentir falta de Anneke, mas Silje cumpre bem a árdua tarefa de substituí-la. Sobretudo por soar bem e em seu próprio estilo.

“Meltdown”, em seguida, é a música mais ousada do cd. Além do vocal masculino (estreia do tecladista Frank Boeijen na função), algo que não ocorria desde “A Life All Mine”, de Souvenirs (2003), a música inicia com uma dinâmica bastante moderna. Porém, pela metade, ela toma rumo mais introspectivo. De fato, Disclosure é um álbum de músicas longas e com variações internas. “Heroes For Ghosts”, quarta faixa, que teve um clipe lançado no ano passado, dura mais de dez minutos. Épica, mostra uma banda entrosada.

“Paralyzed”, terceira música, é a que mais se aproxima de uma balada no disco e, de fato, tem potencial para single. Conta com uma bela melodia vocal e um acompanhamento bem digno.

Disclosure tem também uma faixa dividida, “Gemini I” e “Gemini II”, essa encerrando o cd. “Missing Seasons” talvez seja a canção que menos chama a atenção no cd. “I Can See Four Miles” reforça que, mais do que faixas grandes, temos músicas grandiosas no décimo álbum de inéditas do The Gathering.

O supracitado show dos holandeses em São Paulo, no ano passado, mostrou que o impacto gerado pela saída da ex-vocalista afetou o número de seguidores do grupo. O público que compareceu naquele domingo foi consideravelmente menor que aquele do outro show da banda no Brasil, em 2006, ainda com Anneke – o tamanho do local onde os eventos ocorreram também transmite essa realidade, do Via Funchal para o Hangar 110.

Disclosure nos faz concluir que, junto da separação entre os integrantes, também ocorreu uma entre seus seguidores: foram-se os(as) tietes de Anneke, ficando os verdadeiros fãs da banda. Pois musicalmente é inegável que o The Gathering mantém sua identidade. Com mudanças, claro, pois trata-se de uma característica de sua trajetória. Mas eles seguem explorando as possibilidades do trip rock. Seus fãs da banda podem ser poucos, todavia são convictos de serem uns privilegiados.  

terça-feira, 29 de maio de 2012

Jeff Buckley: 15 anos


Minha intuição sempre foi apurada em relação à música. Grande parte das bandas e artistas que compõem o meu panteão foram percebidos com rápidas amostras. Por isso, poucas decepções guardo comigo nesse tempo em que me tornei um apreciador musical, com a dedicação que tal arte merece.

Com Jeff Buckley não foi diferente. Ainda muito jovem, lá pelos treze anos, vi pela primeira vez um vídeo dessa figura, por intermédio de Terence Machado e seu Alto Falante. Na época, porém, meus ouvidos necessitavam de mais distorções, assim como os homúnculos em Full Metal Alchmist necessitam de pedra vermelha. Mesmo assim, lembro que a música, que não lembro qual era, me causou uma ótima impressão, embora não fosse o que eu buscava escutar.

Guardei o nome e a fidelidade ao programa da Rede Minas. Vi mais algumas vezes Jeff Buckley nesse canal até o Kazaa e minha internet discada me proporcionarem um maior contato com a obra desse compositor. E, até hoje, nas minhas audições já não ocasionais, sinto o mesmo espanto daquela primeira vez. Primeiramente, o mais óbvio, pela qualidade vocal. Será que conheço outros vocalistas que atinjam agudos tão certeiros, prolongados, angustiados, sem destruir o timbre de sua voz? Dificilmente. Jeff Buckley cantava com facilidade melodias incertas que vão desde o suspiro de “I love you, but I´m afraid to love you” em So Real, até gritos prolongados do refrão “Wait in fire” de Grace. Só por isso, ele já seria um inigualável acréscimo à produção musical.

Entretanto, ele acrescentou bem mais. Sua sensibilidade aliada de sua capacidade como compositor fazem com que suas músicas sejam dotadas de uma carga de alto teor emocional. Existem bons compositores que fazem música agradável. Os melhores, porém, são aqueles que colocam um algo mais que dá vida à composição. Justamente, a vida do artista. Por isso a importância da dinâmica interna de suas músicas, com dedilhados leves na guitarra e distorções convivendo em uma mesma música; ou o descontraído cover de Yard Of Blonde Girls e Everybody Here Wants You em um mesmo disco. Dinâmica. É difícil encontrar músicas melancólicas com variações. Talvez por isso eu não goste de Belle And Sebastian. Nem afins.

Por isso e muito mais, não consigo pensar em Jeff Buckley como mais um talento que tenha surgido na música pop. Isso é impensável. Ele está em uma categoria muito mais seleta, a de artistas que atingem uma profundidade muito além da do convencional. Categoria que, com o perdão dos puristas que buscariam pares na década de sessenta, ou algo do tipo, vejo amplamente desabitada.

Infelizmente, escrever sobre Jeff Buckley implica esbarrar no tema da sua morte. Evento que, penso, foi uma das maiores tragédias que a música já vivenciou. Afinal, morrer afogado, antes de concluir os acertos do seu segundo álbum foi uma saída triunfalmente romântica. Trágica, sobretudo. Com todo o peso que essa palavra possui. Nem nisso o filho de Tim Buckley é superável.

Como o fluxo do tempo é contínuo, um rio maldito correndo enlouquecido, completam-se 15 anos que Jeff Buckley morreu. Datas, quem precisa delas? Contar os anos que se passaram desde que sua potente voz foi silenciada não ajuda a manter o ânimo em estado aceitável. Consola pensar que suas músicas estão aí e outras pessoas podem sentir o espanto que o clipe no Alto Falante me causou. Ao menos isso.