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sábado, 15 de outubro de 2016

Este blog não está morto

Aos meus caros e raros leitores,

Olá! Um informe aos desavisados que porventura ainda me procuram por aqui: este blog não morreu! Ele segue respirando, mas em outro plano. Atualmente, publico textos  no site Digestivo Cultural. Lá, no lado esquerdo da tela, em "COLUNAS", você poderá ver "Luís Fernando Amâncio" nas terças-feiras. Para acessar o site, clique aqui. Estarei por lá até que este mundo termine em coxinhas - um apocalipse nada distante.

Também aproveito a ocasião para anunciar que um conto meu à venda no site da Amazon como e-book. O nome do conto é "Garanhãodiscreto.85" e ele é inédito. Quem tem um Kindle poderá lê-lo através de seu aparelho, mas também é possível baixar o aplicativo da Amazon e ler o conto em seu tablet ou celular. O conto está disponível neste link. 

Lembrando também que meu primeiro livro, Contos de Autoajuda para Pessoas Excessivamente Otimistas (Editora LiteraCidade, 2014), um clássico da literatura intergalática, está quase se esgotando. Quem ainda não comprou o seu, corre, entra em contato comigo e garanta o seu exemplar! Senão, vai por mim, você estará desatualizado nas tendências e vai ficar excluído no seu círculo de amigos! Meu email é . O preço do livro é R$20,00.

Obrigado pela preferência!

Um abraço,

Luís Fernando Amâncio

terça-feira, 4 de novembro de 2014

País dividido

João foi ao estádio ver seu time do coração jogar. Lá, ele achou a festa bonita, tanta gente vestindo roupas com as mesmas cores que as dele, cantando e declarando amor ao União Cascalhense. Gostou do que viu. E mais: se empolgou. Inclusive porque, mal o juiz autorizou o início da partida, o centroavante de seu time puxou a bola para um lado, deixou a marcação do outro e sapecou um belo chute. 1 a 0.

Aí, João delirou. Foi abraçado por um montão de gente, berrou feito doido. E pensou: “eu pertenço a isso, sou torcedor do União Cascalhense. Aqui, todos são como eu, somos um grupo de iguais!”. Feliz com a constatação, João sorriu.

Até que a bateria da torcida começou a puxar uma música, um axé. João era roqueiro, tinha pavor desse gênero musical. Ele olhou ao redor e viu que vários colegas da torcida cantavam a música. Então, ele achou melhor repensar sua divisão. Era, sim, torcedor do União Cascalhense, mas não era igual a todos ali. Era mais igual aos torcedores do União Cascalhense que fossem roqueiros. Fez uma busca rápida: viu um cabeludo, uma moça toda tatuada e um senhor com a camisa de uma banda que ele gostava. Deviam ter outros fora do seu campo de visão.

Isso, tinha encontrado um grupo ao qual pertencia plenamente. Certo? Não. João olhou melhor e viu que o cabeludo levava, na mochila, um adesivo do candidato presidencial que ele abominava. Não, não podia estar no mesmo grupo que aquele cidadão, eles tinham visões de mundo muito diferentes. João se negava a ser igual a quem não percebia que Lucrécio era a melhor opção para o país. Fez, então, uma nova definição para o seu grupo de pertencimento: torcedores do União Cascalhense, roqueiros e que votavam em Lucrécio para presidente do Brasil.

E cebola? Não, João também não se via num grupo de iguais com pessoas que gostassem de cebola. Nananinanão, só maluco para gostar de cebolas e João não se considerava maluco. Redefiniu: sua turma era de pessoas que torciam para o União Cascalhense, escutavam rock, votavam no Lucrécio e tinham pavor de cebola.

Mas o jogo seguia e João foi prestar atenção. Ele viu, com apreensão, o adversário empatar a partida. Lamentou quando um gol contra fez a virada. Irritou-se com o terceiro gol dos visitantes. E quando o quarto tento foi anotado, ele bufou – afinal, é contra a Alemanha que estamos jogando?


Na volta para casa, envergonhado com a derrota acachapante, João refletiu sobre o grupo de iguais que havia imaginado. E pediu para sair – já não estava assim tão convicto como torcedor do União Cascalhense.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Luto, Brazil

Mal deu conta de si naquela manhã e a dor já latejava em seu peito. Um aperto tão grande que, se fosse físico, seria mais fácil de lidar. Ligaria para um médico, tomaria algum remédio e estaria curada. Mas não, aquela dor era coisa que transcendia o corpo. Apertava seu ser.

Viu, ainda na cama, a maquiagem não retirada da noite anterior borrada no travesseiro, sujando os lençóis. Cortesia das lágrimas, cascatas da noite de agonia. Então, Deborah pensou em seus olhos, que deveriam estar inchados como nunca antes.

Curiosa, levantou e foi até o espelho. No caminho, desviou da camisa da seleção brasileira, arremessada contra a parede num acesso de raiva. No espelho, seus cabelos permaneciam deslumbrantemente loiros, mas as olheiras, de fato, denunciavam o choro. Seu rosto refletia a tragédia.


Deborah olhou para as unhas, pintadas de azul e amarelo. O ódio voltou e ela pensou em pintá-las, agora, com esmalte negro. Estava de luto. Por isso resolveu fazer um vídeo, anunciar sua frustração com o resultado das eleições. E, tal como no término com o ex-namorado ou quando o seu cachorrinho morreu, ela escolheu lidar com a situação da forma mais madura da qual era capaz: declarar que se mudaria para Miami.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Notas sobre um linchamento

Zacarias retornou do mercado e, enquanto se preparava para abrir a alfaiataria, foi abordado por um atônito Apolônio:

- Zacarias, olha isso – e entregou ao amigo uma folha em que se lia “Jerusalém Alerta” e na qual constava um desenho de um rosto masculino.

- “Jerusalém Alerta, suposto retrato do homem que se declara Rei dos Judeus, filho de Deus”... Peraí, a gente não viu esse cara ontem?

- É isso que eu queria te perguntar. Não é aquele cabra que passou pela gente ontem?

- Tô achando que é... E o filho da mãe sonega impostos, você leu isso?

- Li. A gente se matando de trabalhar e esse marginal por aí, caluniando a nossa fé e não pagando impostos.

- Vamos à casa de Eliseu. Ele sempre sabe onde as pessoas moram por aqui.

***
Na casa de Eliseu, o velho, observado pela esposa e os três filhos, analisou o panfleto.

- Sei quem é. Trabalha em uma carpintaria, se não me engano. Fica três ruas pra lá, há uns seis quarteirões daqui.

- Vamos lá – se exaltou Apolônio. Se deixarmos para o império Romano resolver isso, já sabem como vai ser. Lei de Roma pra cá, recurso ali, Direitos Humanos... o fanfarrão do Pôncio Pilatos vai deixar por isso mesmo. Em menos de um ano esse safado vai estar solto, caluniando livremente nossa religião.

- Rei dos judeus, esse palhaço precisa ser enquadrado – disse Zacarias, apanhando algumas pedras no chão. Vem com a gente, Eliseu?

- Claro. Bartimeu e Bartolomeu, venham também – disse aos filhos, que vieram com paus na mão.

***
Durante o caminho eles se tornaram uma pequena multidão. De forma que, quando chegaram na carpintaria e avistaram o suspeito, imediatamente uma chuva de pedras veio em sua direção. Os outros empregados, em pânico, esconderam-se. Mas o alvo da multidão era outro. Atordoado com as pedradas, o sangue do corte em sua testa escorrendo em seus olhos, o suspeito foi logo dominado, amarrado em uma vara e levado para a rua.

Nem teve tempo de saber o que se passava. Enquanto era espancado, escutava frases como “cadê seu Deus-Pai agora, seu merda?” e “vou te coroar de porrada, rei dos judeus”. Um linchamento impiedoso.

Enquanto estendiam o corpo na rua, Carmelo, que vinha do centro de Jerusalém, trouxe a noticia de que um tal de Jesus, acusado de caluniar a religião judaica e de sonegar impostos, acabara de ser preso por guardas romanos.

- Vixe, então não era esse.

- Parece que não – respondeu Carmelo. Agora, vamos todos para a praça central! Dizem que Pilatos vai fazer uma votação para decidir se crucificam o meliante ou não.

- Ah, o safado não pode se safar.

- De forma alguma.


E o coro de “crucifiquem-no” já pode ser ouvido dali. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Canário Rei

Eram seis da tarde, mas a sensação térmica era de, pelo menos, três horas a menos. Pela janela, raios de sol acertavam pai e filho, deixando seus rostos brilhantes. Suor que escorria em gotas. O lanche estava na mesa e os dois não comiam com muita vontade. Faltava disposição. Nem os bravos são felizes no calor.

- Quando a mamãe chega?
- Mais tarde, filho. Hoje ela tem reunião.

O menino ainda vestia o uniforme escolar. Brincava soprando o achocolatado com o canudo. E o pai observava. Deveria repreendê-lo por brincar com a bebida, é o que sua mulher faria. Mas estava olhando para seus pés. Agora eles já tocavam no chão, apesar de estar sentado numa cadeira normal. Seu garoto crescera.

- Você tem lição de casa?
- Tenho. Mas é pouquinho.

Então, eles ouviram um canto. A televisão estava ligada, dezenas de automóveis roncavam com seus motores pela rua e, acima deles, havia um canto. E os dois se olharam:

- Vamos lá ver?

Foram. O canário estava perto, podiam escutá-lo muito bem. Estava na casa do vizinho, sobre a antena de TV paga. O fim de tarde sorria para eles, um singelo sorriso amarelo e de cabeça laranja. No mormaço da cidade, o passarinho, do alto, era rei.

Pai e filho ficaram felizes ao ver sua majestade. E o menino preparou a estilingada.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Danação

Mesmo de longe, ele podia sentir o calor, imensurável por termômetros de mercúrio, das labaredas infernais. O anjo caído o esperava com um sorriso aberto, camuflando a sede por seu sangue. A fome por sua carne.

__ Satanás, é você?
__Sou.

Sim, havia um lugar no inferno reservado com o seu nome. Mas ele não se importava. Considerava-se até vítima: que culpa tinha se aquilo que lhe aprazia causasse a danação de sua alma?

E como dava prazer. Digitou: “Morreu hoje o ator Roberto Gomes Bolaños, criador do personagem Chaves”. Clicou em enviar. Deu gargalhadas. Danou-se mais um pouco.

Mais embaixo, Satanás riu mais alto. Adorava os espalhadores de boatos na internet.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Resposta Errada

Naquele sábado, eles haviam combinado de não se encontrar, pois se veriam na manhã do domingo. Mas ela, atormentada pela paixonite, recorreu a Grahan Bell e chamou o amado no avançado da noite.

__ Oi, meu bem. Desculpa ligar tão tarde, mas eu to com sdds J.
__ Ei, linda. Pode ligar, gosto de ti ouvir. Tbm estava pensando em vc, s2.
__ s2 s2 s2!!! Então, q q vc ta fazendo, amor?

Pausa na cena. Entrada do narrador:

Nessa história, nosso herói aprenderá que existem verdades que são duras demais para serem ditas. Omitir alguns fatos, por mais errado que pareça, pode ser essencial para se perpetuar um relacionamento. Mas, infelizmente, nosso herói só saberá disso através de seu erro.

Play.

__ Então, linda, ñ fiz mta coisa hj, ñ. To assistindo “Zorra Total” kkkkk.


E fez-se o silêncio do outro lado da linha. Eterno.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Tempo para recordar


O pai se ergueu do sofá, caminhou até a janela e, de costas para o filho, começou a discursar:

__ Garoto, dias assim me remontam aos anos em que passei na cadeia. Dias terríveis, angustiantes. Neles, as horas escorriam lentas e dolorosamente. Como eu sofri, meu filho, como eu sofri. (...)


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Os sonhos do Sr. Oliveira

            Envelhecer é realmente uma coisa horrenda. Sr. Oliveira demorou a aceitar esse fato. Na juventude, ele esbanjava vitalidade. Tinha o físico de um touro e uma disposição respeitável.
Mas quando foi inevitável reconhecer que o peso do tempo em suas costas já era visível, ele se esforçou para lidar bem com isso. Afinal, foram-se setenta e sete primaveras. Não podia negar que o outono se aproximava.
Sr. Oliveira refugiou-se, então, na rotina pacata de um aposentado. Gostava de passear com seu cachorro pela manhã. Iam até a padaria, desfrutando o frescor das seis horas. O dia esbanjava o frescor nesse momento e as ruas exibiam tranqüilidade igual a do tempo de sua juventude.
Voltava para casa com os pães, o cachorro e o jornal. Ficaria a manhã toda folheando tranquilamente as páginas, comentando as notícias com a esposa e repreendendo o neto adolescente, que só acordaria depois das dez.
Em algumas manhãs, todavia, Sr. Oliveira ficava inquieto. Culpa de sonhos que periodicamente vinham perturbá-lo. Nada de novo, era o seu passado que vinha visitá-lo. Lembranças dos tempos em que sua patente militar precedia seu nome mesmo nas relações familiares. De subterrâneos, com umidades nas paredes e gritos de dor aterrorizantes ao fundo. Jovens barbudos em sua frente se negando a confessar. E ele os torturando. Pelo bem da pátria.
Sr. Oliveira não sentia culpa. De fato, até se orgulhava. É que aqueles gritos... Ele só queria que eles não fossem tão viscerais. E tantos. Tantos...

quinta-feira, 1 de março de 2012

29 de Fevereiro

A cada ano, a Terra demora 365 dias para circundar o Sol. Na verdade, entretanto, ela nunca é eficiente a ponto de cumprir a meta. Sobram seis horinhas bobas nessa brincadeira toda. No limbo, elas vão sendo acumuladas e, no quarto ano, formam um dia completo. É o fatídico dia 29 de fevereiro, especial por sua raridade.

Moisés nunca tinha pensado nisso com seriedade. Até aquele ano. Ficou deslumbrado com a ideia de um dia distinto a ponto de só ocorrer naquela periodicidade. Um dia extra, atípico, não poderia ser desperdiçado.

Por isso, não foi trabalhar. Dedicaria o dia raro a si mesmo. Ficaria em casa, feliz.

Mas não foi o suficiente. Ele não queria ser egoísta e gastar o dia extra apenas consigo mesmo. Era preciso fazer algo bom, mas não só para ele, para todos. Para o mundo. Só ficaria satisfeito se fizesse algo grandioso.

E ele fez. No dia 29 de fevereiro de 2012, Moisés matou os seus vizinhos.